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Blog EntryAdolar GangorraJul 2, '08 10:34 PM
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O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista.  Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava.  E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso.

Como no caso da música Eduardo e Monica, do álbum Dois da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente enquanto a feminina (Monica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos.

Analisemos o que diz a letra. Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente ("Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram") ao mesmo tempo que tentar dar uma imagem forte e charmosa à Monica ("enquanto Monica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram"). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã, como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura ("Festa estranha, com gente esquisita..."). Bom, "Festa Estranha" significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poder fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. "Gente esquisita" é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da Via-Láctea. Enfim, esta era a tal "festa legal" em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.

Assim temos ("- Eu não estou legal. Não agüento mais birita"). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Monica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground. Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram ("E a Monica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar"). Vamos por partes: em "E a Monica riu" nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Monica para com Eduardo. Ela, bêbada inveterada, ri de um bêbado inexperiente!

Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se "quis saber um pouco mais" leia-se "quis dar para"!  É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Monica. A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho que tentava impressionar"!  É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como "boyzinho"... Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Monica de bicicleta, como consta na quarta estrofe ("Se encontraram então no parque da cidade A Monica de moto e o Eduardo de camelo"). A não ser que o Eduardo fosse um beduíno, e estivesse realmente de camelo, mas ainda nesse caso não seria um "boyzinho". Se alguém aí age como boy, esta seria Monica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 ("Ela era de Leão e ele tinha dezesseis") todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Monica.

E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu? Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Monica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo ("O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Monica queria ver um filme do Godard"). Atitude esta nada democrática para quem se julga uma liberal. Na verdade, Monica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto, em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado pra caralho e com muitas cenas de baitolagem.

Em seguida Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir suavemente à Monica ("O Eduardo achou estranho e melhor não comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo"). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. À pouco vimos Monica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Note que Russo informa a idade de Eduardo, mas propositadamente omite a de Monica. Além disto, se Monica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril ou porque é uma baranga escrota mesmo.

O autor insiste em retratar Monica como uma gênia sem par. ("Ela fazia Medicina e falava alemão") e Eduardo como um idiota retardado ("E ele ainda nas aulinhas de inglês"). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar "iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda como são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas", para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente. Coitado do Eduardo, é um jumento mesmo...

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois ("Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud"). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.As, muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão "do Bandeira". Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí, cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar "Êta" com "Tiêta" e neguinho ainda diz que ele é gênio!

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo ("E o Eduardo gostava de novela") e crianção ("E jogava futebol de botão com seu avô"). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões!  É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.

Continuando, temos ("Ela falava coisas sobre o Planalto Central, também magia e meditação"). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada ... Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Monica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto ("E o Eduardo ainda estava no esquema "escola - cinema - clube - televisão"). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse "bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay - delegacia"?? E qual é o problema de se ir a escola, caramba?!?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Monica ("Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar"). Por ordem: 1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto. 2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo. 3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra ("A Monica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar"). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Monica trabalha na previsão do tempo? Não. Monica é geóloga? Não. Monica é professora de química? Não. Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba? Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência ...

Ainda em "Ele aprendeu a beber", não precisa ser muito esperto pra sacar com quem... é claro, com Monica, a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Monica! Grande contribuição!

Depois, temos "deixou o cabelo crescer". Pobre Eduardo. Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Monica na cabeça do iludido Eduardo. Sempre à frente em tudo, Monica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade ("E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular"). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Monica deverá estar ganhando o seu prêmio Nobel. Outra prova da parcialidade do autor está em ("porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação"). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Monica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.

O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior. Bem típico de algum recalque homossexual do autor, talvez magoado com a natureza masculina. É sabido que em todas culturas e povos existentes, o homem sempre oprimiu amulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra.

Por quê? Ora, porque tanto homens, mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até... Renato!

Adolar Gangorra tem 71 anos, é editor do periódico humorístico Os Reis da Gambiarra e não perde um show sequer dos The Fevers

Blog EntryescrevendoMar 17, '08 11:09 PM
for everyone

escrevendo

e as pessoas que gritavam na orla da praia queriam vinganca





e eu gritava por fadiga,





e na sala de visitas os anõezinhos gritavam por televisão





a branca de neve não usa colgate





e não grita de felicidade como dentro das maçãs





como fazia antes de se tornar princesa





ela era veneno...e calculava tudo





e os outros pensavam que ela não blefava





pois era tão menina e ninguém calcularia a dosagem de aleluia





que residia na sua ansiedade





a neve caia em meu coração quando aqueles anõezinhos ferozes





relinchavam lorotas a beira-mar se afogando de vez em quando,só para puxar o saco da Branca





gente...que onda que eu tive de segurar!!!!!





as mentiras da aleluia no seu vão untado de alivio ansioso não podem nos salvar





desse puxassaquismo esotérico





e a gritaria recomecava agora na NASA!





acharam mais um buraco negro!!!





negro como a neve!!!





um complô universal para a angústia conquistar a invenção das religiões!!!





oh , antimatéria que nos espelha nas entranhas do mundo!!!





a música das esferas nos esculacha com sua beleza





a hóstia é uma coisa tão sexual!!!





os anões estão malhando pra caralho!!!





estão fortíssimos agora e...se atiram para os pinos de boliche!!!!





tudo bem,tudo bem...eles ganham a vida assim...eles são uns condenados pelas suas artimanhas





tagarelar é uma forma intensa de meditação!!!!! as músicas das esferas uivam de dor e eu sozinho rechaço todas as oportunidades de continuar tendo um raciocínio linear ; achando graça do estéreo da música das esferas





minhas mensagens vêm como uma emboscada, portanto, não tome cuidado algum!!!





Você vai se foder de qualquer jeito,ah,ah,ah!!!!





e o mais engraçado é que eu tambem!!! eh ,eh,eh!!!!





mais não nos desesperemos....nós vamos chegar lá ,afinal de contas,a divindade é uma exigência daqueles afim de pai.

















e assim nós nos tornaremos Aquele a quem tanto procuramos!





nós os anõezinhos seremos Um so na forma de Branca de Neve enveneneda !!





nós seremos a maçã da gravidade que nunca irá cair!!! a maçã da gravidade Zero!!!!





deixaremos de puxar o saco Dela para que, como ela ,reinventemos o universo com mais bôjo





com mais vermelhidão!!! .....e assim as nossas feridas abertas se tranformarão em galáxias alegres a cantar





a música das esferas jamais balbuciará novamente....sera o suave torpor dos intestinos do céu!!





as estrelas estarão em delirio na praia da borda dos mundos e todos os anões(fortissimos) entrarão nela para





fazer uma equipe de water pólo(eles só pensam em esporte)mas a Branca não os deixará em paz





Ela sempre quis que todos se tranformassem num(ou numa) só.





essa coisa compulssiva de ficar malhando pra CARALHO é apenas mais um influxo de compressão universal,





uma espécie de sistema de compressão cósmica que acarretará grandes falcatruas da nossa espécie para transcodificar a Palavra e o Verbo e assim poder já nascer divindade ,fazer a franquia e azucrinar aqueles cagões retardatários que vivem acreditando em nós, eh,eh





só que eles nunca saberão que eu ,voce e todos aqueles anões sacanas somos ,à partir de agora,a gloriosa Branca de Neve





e eles nos imaginam, como um velho patriarca hebreu...





mas isso é porque viram muita televisão e acreditam em tudo que lhes impingem goela abaixo...graças a deus...





mas uma vontade de se multiplicar(ou se estilhaçar,tanto faz)provoca uma tensão dionisíaca nos anões e eles começam a copular freneticamnte em torno da orla da praia ...eles estão se lambendo ritualisticamente...





alguns,devido a excitação sexual,acabam por se afogar e ,imediatamente se transformam em planondinhas...





os sobreviventes eufóricos comecam a pegar jacaré com os anõezinhos afogados





e a Branca fica na praia tocando uma siririca ....ela se excita moinnnnnnnto e provoca com suas secreções vaginais uma contramare que patrocina uma pororoca sem precedentes esmagando todos os anões em seu ventre....





agora eles parecem uns mariscos encrustados na barriga de Branca....rola uma gosma estranhona que escorre entre a as pernas da boneca





e esse suco de anão esmagado é derramado no mar formando um sopão...





agora Branca coloca o sopão numa concha e bebe todos os anões transcodificados....





esse caldo de anão deixa Branca em estado de transe....ela está muito cheirosa e comeca a delirar...





esse seu delirio é tudo o que vivemos hoje,agora e sempre .Nós somos o delirio eterno da Branca de Neve





tudo que vivemos ou imaginamos é subproduto do efeito dessa sopa....





o universo que "existe" é apenas um anseio em meio ao delirio daquela mulher,que somos nós!!!





e assim,nesta imensa precariedade cósmica,pensamos que existimos,numa golada de sopa de anão psicodélico!!!!!

 

 Lobão (12/12/2004)































































"QUERO ME LIVRAR DESSES FANTASMAS"
Entrevista: Marcelo Mirisola, escritor

 
Joana a contragosto, romance de Marcelo Mirisola. Lançamento da Editora Record 187 páginas, R$ 27,90

Cultura - Já é notório seu talento para o insulto, mas agora descobre-se seu talento para o elogio do amor?
Marcelo Mirisola - Fabrício, meu caro. Tenho talento para escrever (o que não é pouco, concorda?). Outro dia me surpreendi elogiando a invasão americana no Iraque. O elogio era tão bem fundamentado que até eu me convenci. Isso - admito - é um perigo, uma irresponsabilidade. Mas no final das contas o que vale é a diversão de poder transformar um bom argumento em ficção. Às vezes - infelizmente - eu não me divirto tanto. E é aí que a coisa pega. Em primeiro lugar porque o estopim já foi detonado (falo da febre de escrever...) e, depois, porque tenho que manter a situação sob controle. Isto é, tenho que arrumar um bom pretexto para me abandonar. Para, enfim, não acreditar 100% naquilo em que eu mesmo engendrei. O nome disso é ficção. Não é nada fácil, dá um trabalhão danado e pode cansar mais do que uma entrevista. O pior de tudo é que sou pessimamente remunerado.

Cultura - Joana a contragosto não é contaminado, como nos livros anteriores, de referências a programas de televisão e de música da década de 70 e 80. É seu livro mais ficcional nesse sentido de se afastar da indústria cultural?
Mirisola - O que você chama de "indústria cultural" nada mais é do que um dado. Uma ferramenta de trabalho a serviço de um enredo. Em O azul do filho morto havia a necessidade da televisão ligada, do programa do Bolinha e de outros eletrodomésticos e mandiopans afins. Vale notar que toda essa parafernália apenas ajuda na condução do livro, de maneira alguma atrapalha o andamento da história e jamais pode ser confundida com algo datado. A mesma coisa vale para os palavrões. Estão ali cumprindo uma função. Aliás, não existem palavrões nos meus livros. Existem - repito - necessidades. Mas como eu dizia, queria ver se Marcel Proust tivesse nascido lá em casa, em 1966... cada um que administre a madeleine que lhe cabe. Bem, no caso de Joana, as necessidades eram outras. A discussão era mais eloqüente. Tinha que lidar com o confronto entre vida e arte. Tinha que falar de amor e não podia ser derramado... ao mesmo tempo tinha que abaixar a guarda e dar um xeque-mate no meu narrador. Meu estilo estava em risco, e ainda por cima Joana era mais real na minha ficção do que jamais poderia ter sido em qualquer situação vivida de fato. Eu era o médico e o paciente. Emagreci 15 quilos e terminei o romance em exatos nove meses. Se você acha pouco, Fabrício, lhe digo que teve muito mais. O problema é que quero me livrar desses fantasmas, e não consigo. O sobrenatural ainda está me pedindo explicações... e eu não sei como lidar, não sei o que dizer. Estou cansado, meu amigo. Na verdade, gostaria que ela, Joana, fosse mesmo uma mulher de verdade (de fé, uma companhia a toda prova) e que estivesse aqui ao meu lado para o que der e vier. Mas não tenho nada, nada, nada.

Cultura - Como o personagem, você já recebeu um pé-na-bunda de alguma namorada?
Mirisola - Quem não levou? Mas isso não é importante. Tanto não é importante que antes havia levado e depois levei outros mais doloridos que não viraram livros. O livro é resultado de uma escolha. E ninguém é louco de deliberadamente escolher se arrebentar para escrever um livro. A gente simplesmente se arrebenta - e aí não podemos falar em "protagonistas", entende?

Cultura - Sua obra anterior, Notas da arrebentação, no formato de correspondência, ajudou na elaboração de Joana a contragosto, uma longa, dolorida e terrível carta de amor a uma mulher?
Mirisola - Acho que não. O Notas da arrebentação foi uma oportunidade que eu tive de juntar uns textos que estavam espalhados por aí em jornais, revistas e malfadadas antologias. Eu queria "salvar" principalmente um conto chamado Rio pantográfico. O melhor conto que escrevi até hoje. Esse conto não merecia ser confundido com as políticas do organizador da antologia. Se você quer mesmo saber, vou lhe dizer uma coisa: me senti aliviado por ter tirado esse conto das garras do Nelson de Oliveira. Quando a antologia foi duramente criticada, ele não bancou a idéia. Disse que nós, da tal "Geração 90", éramos continuadores das obras de Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão e Márcia Denser. Disse que procurávamos "a excelência do texto" e mijou feio para trás. Eu me senti profundamente ofendido. Não sou um executivo de letras. Não estou aqui para continuar a obra de ninguém e não preciso dar tapinhas nas costas de ninguém para ver meu belo rostinho publicado nos jornais. Também não escrevo de graça em lugar nenhum. Enfim, entrei de gaiato nessa barca furada por delicadeza. Quis ser gentil, aceitei o convite e quebrei a cara.

Cultura - Você já disse que os autores que receberam prêmio em detrimento de seus livros deveriam depositar o dinheiro em sua conta. Lembro que tornou público o número de sua conta. Sente-se excluído dos prêmios literários?
Mirisola - Completamente. E não custa nada repetir o número da conta: Itaú, agência 0189, conta corrente 48227-6 . Será que esses escribas não vão se ligar nunca?

Cultura - Quem Marcelo Mirisola gostaria de ser por um dia?
Mirisola - Por uma noite: queria ser o personagem M. M. do Joana a contragosto.

Cultura - É estranho pensar que é o segundo livro que fala de seus filhos mortos, incluindo O azul do filho morto. Em Joana a contragosto, o narrador lamenta que sua transa sem camisinha tenha sido apagada pela pílula do dia seguinte e se vê pai de uma indiazinha de olhos amendoados que não nasceu. Nossa, cria uma nova paternidade: a de fantasmas?
Mirisola - Muito triste isso, hein, Fabrício? Muito bonito também.

Cultura - O personagem contrai o vírus HIV e não culpa a mulher. Vira um detalhe secundário na trama. O amor torna a vida inverossímil?
Mirisola - O amor é mais letal que a vida. Não promete apenas a morte. É muito mais do que isso. A Joana do livro acabou com a inverosimilhança do narrador. Também levou todos os anticorpos, os paradoxos, a alma, o cérebro dele, não deixou nada. Sobraram os fantasmas. Uma vida que se exauriu em função de uma arte estéril, maldita.

Cultura - Pela condução das suas obras na primeira pessoa, muitos leitores confundem a opinião de seus personagens com a do escritor. Mirisola é tão machista assim, tão trash, tão inconformado e cínico? O que há de diferente entre os dois?
Mirisola - As respostas acima, por exemplo.

Cultura - Percebo que seu alter ego encontrou uma mulher à altura da maldade dele. "Ela me devolveu a mim mesmo." Houve um processo de conscientização da figura masculina a partir do narciso feminino?
Mirisola - Houve um processo de destruição plena da figura masculina. Que curiosamente também destrói a feminina. Terra arrasada.

Cultura - Qual foi o erro do seu personagem para não conquistar Joana? O jogo limpo?
Mirisola - Foi ter escrito o livro (e aqui faço questão de misturar as coisas).

Cultura - Nunca a poesia entrou com essa intensidade na veia de sua narrativa, misturando ternura e naufrágio. Se Notas da arrebentação tinha o subtítulo Menos poesia, Joana poderia ter o de Mais poesia. Você mostra finalmente uma feição lírica?
Mirisola - Não tinha outra saída, Fabrício. O lirismo era a única saída para o meu narrador. Talvez a última.

Cultura - Seus livros seguem um projeto ou são feitos por uma escrita inconsciente, visceral, em que nem o escritor conhece o final, tipo "cada vez que procuro entender, a coisa piora"?
Mirisola - Pelo contrário. Mantenho as rédeas curtas. Sei exatamente o que pretendo e aonde quero chegar. Não desejo fazer concorrência a Zibia Gasparetto. Tenho um estilo a preservar, afinal de contas.

Cultura - Você já realizou parcerias com Caco Galhardo (O banquete). É possível trabalhar em conjunto com outro autor sem perder a individualidade do estilo?
Mirisola - Perfeitamente, e além disso dá para se divertir um bocado. O Caco Galhardo é um sujeito sintonizado com aquilo que eu chamo de "inhaca" da classe média. Ele me mandou umas 300 gostosas da sua coleção de Pin Ups. Nunca tive tantas mulheres em casa. Escrevia uma por dia, e o resultado foi muito bom. Em 30 dias tinha o livro pronto. Tenho notícias de uns malucos por aí que se masturbam com o livro. Espero que as mulheres desenhadas pelo Caco sejam as inspiradoras. Meu texto - até onde eu sei - é às vezes esquisito, às vezes melancólico, às vezes demente. Às vezes lírico. Se isso dá tesão em alguém, eu só posso achar muito estranho, e lamentar.

---

(Mirisola reinicia, hoje, sua publicação de crônicas na internet: http://congressoemfoco.ig.com.br)



Noite negra e fria pelas sequóias

carros parados lá fora na sombra

atrás do portão, estrelas tênues sobre

o barranco, uma fogueira ardendo perto da

varanda e almas cansadas curvadas

em jaquetas de couro negro. Na imensa

casa de madeira, um candelabro amarelo

às 3 da manhã o estouro dos alto-falantes

hi-fi Rolling Stones Ray Charles Beatles

Jumping Joe Jackson e vinte jovens

dançando na vibração pelo chão da sala,

erva rolando no banheiro, garotas de malhas

vermelhas, um homem sarado e suave

suando e dançando por horas, latas de cerveja

em pilhas no quintal, a figura de um enforcado

balançando num galho alto sobre o riacho,

crianças dormindo sossegadas nos beliches.

E 4 carros de polícia estacionados no portão

recém-pintado, luzes vermelhas revistam as folhas.



Dezembro de 1965


First Party At Ken Kesey's With Hell's Angels


Cool black night thru redwoods

cars parked outside in shade

behind the gate, stars dim above

the ravine, a fire burning by the side

porch and a few tired souls hunched over

in black leather jackets. In the huge

wooden house, a yellow chandelier

at 3 A.M. the blast of loudspeakers

hi-fi Rolling Stones Ray Charles Beatles

Jumping Joe Jackson and twenty youths

dancing to the vibration thru the floor,

a little weed in the bathroom, girls in scarlet

tights, one muscular smooth skinned man

sweating dancing for hours, beer cans

bent littering the yard, a hanged man

sculpture dangling from a high creek branch,

children sleeping softly in their bedroom bunks.

And 4 police cars parked outside the painted

gate, red lights revolving in the leaves.


December 1965


ALLEN GINSBERG
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes (fonte:http://estudiorealidade.blogspot.com/)

Blog EntryRoberto Piva na revista eletrônica CronópiosSep 21, '07 1:28 PM
for everyone
19/9/2007 11:46:00
Ebulições Pivianas


Por Paula Dume e Renata D’Elia






No mundo da poesia de Roberto Piva, xamãs celebram o extraterreno todos os dias, os ciclos da natureza são respeitados pelos seres da apodrecida capital poluestana e o planeta acusa que estar em trânsito é um bom sinal para os tempos. O poeta, que completa 70 anos em setembro, expurga juízos e assassinos da realidade de modo controverso ao descosturar pregas móveis demais para uma sociedade imóvel com o agora. “O Brasil que eu lido não é esse. Eu não lido com o país inteiro, eu lido com grupos, com pessoas, com indivíduos", aponta.

 

Em 1961, participou da "Antologia dos Novíssimos", de Massao Ohno, na qual vários poetas brasileiros, até então iniciantes, foram lançados, como Álvaro Alves de Faria. Hoje, Piva é um dos três únicos poetas brasileiros que ocupam linhas no "Dicionário Geral do Surrealismo", publicado na França. Entre "Paranóia" (1963) e "Ciclones" (1997), tem outro livros individuais lançados, além de participações em antologias. Piva está prestes a lançar seu terceiro volume de obras reunidas pela Editora Globo, "Estranhos Sinais de Saturno".

 

Nas palavras de Paulo Franchetti, professor titular no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os escritos do poeta se firmam pela ruptura entre os contrários: “Perto dessa obra, que permaneceu de fato marginal (senão maldita até muito recentemente), os ‘poetas marginais’, seus contemporâneos de antologia, acabam mesmo por parecer garotos instalados na ‘perspectiva estável de uma sala de jantar de classe média’”.

 

Na sala do seu apartamento no bairro de Santa Cecília, Piva conversou sobre seus gostos pela poética da transgressão, seus desgostos pela política e seus contragostos pelos paradoxos da urbanidade.

 

 

Você mora no centro de São Paulo há muito tempo. Você considera essa cidade de hoje mais sombria ou mais dócil que a de ontem?

Mais horrorosa. Eu só moro aqui porque não tenho dinheiro para comprar um sítio, senão eu já estaria fora.

 

Por que horrorosa? O que mudou tanto para você achá-la horrorosa?

Não mudou nada, é por isso que é horrorosa. As pessoas estão mais criminalóides. É uma sociedade de massa, tem criminalidade de massa. Toda metrópole é uma necrópole, um vasto cemitério. O homem é o único animal que armazena seus mortos. Por medo de pegar bicho-de-pé fica amontoado nas cidades, se devorando.

 

As pessoas são mortas-vivas?

Depende das pessoas.

 

Você afirma não ser um poeta da cidade, mas um poeta na cidade. Esse poeta percorre os lugares pelos quais passava na década de 60 e pelos lugares que passa hoje e percebe diferenças? Quais?

Perdeu a magia, a dimensão lúdica. Hoje é uma cidade devastada, com uma população desenraizada que veio do campo para a cidade completamente sem visão do urbano, sem visão de nada.

Antigamente o centro refletia a cidade. Você acredita que hoje isso mudou ou a cidade nunca refletiu nenhum espaço dentro dela própria?

Eu escrevi o livro “Paranóia” que tem uma visão mágica da cidade, como uma grande carniça apodrecendo. Eu vivo aqui por mera falta de opção. Vocês viram no meu livro que saiu pela [Editora] Globo, no primeiro volume [de reedições da obra completa], uma foto minha de 14 anos na fazenda dos meus pais. Aquele tempo é o tempo do sonho, é o tempo dos anos dourados que não voltam mais.

 

Você nasceu no interior?

Eu nasci em São Paulo, na rua Joaquim Eugênio de Lima, na Pró-Matre. Eu fui para o interior, porque meus pais tinham fazenda lá, eram fazendeiros. Eles moravam perto de Rio Claro, em Analândia.

 

Como e quando foi seu primeiro contato com o xamanismo?

Foi na fazenda do meu pai, com um mestiço de índio e de negro que me iniciou na piromancia. Eu tinha 12 anos. Ele mandava eu olhar para o fogo e descrever tudo que via, depois ele interpretava. Era empregado da fazenda e tinha essa dimensão cósmica. Era um poeta intuitivo, um xamã. Depois, eu fui iniciado em mil outras orientações.

 

Jim Morrison afirmava ter sido capturado por um xamã indígena quando criança. Você também foi capturado pelo xamanismo?

Os primeiros poetas eram todos xamãs, e vem daí essa tradição de ligar poesia e inspiração com as técnicas arcaicas do êxtase. Não tem regras. O importante do xamanismo é que se trata de uma religião de poesia, não de teologia. Dante [Alighieri], por exemplo: todo o xamanismo está lá, os três reinos, a ligação mágica que ele tem com o número nove. Ele passou nove dias com febre e durante esses dias teve a intuição de “A Divina Comédia”. Depois, foi exilado de Florença, porque era contra o papa ter poder temporal. Ele era um nômade. Foi hóspede de vários aristocratas que admiravam o trabalho e a cultura dele. Escrevia enquanto estava em trânsito, nos passeios que fazia em torno do castelo desses senhores feudais.

 

Para Jean-Luc Godard, a felicidade não tem história. A poesia tem?

A poesia tem mito, mito do eterno retorno. Ela vive em função das estações, dos ciclos da natureza.

 

O que te motiva ou motivou nessa lida poética: alucinação ou insatisfação?

Os dois. Aquilo que Henry Michaux disse: “na minha absoluta incapacidade de conformar-me”.

 

Na sua carreira, você criou sob o efeito de drogas alucinógenas e psicodélicas. É possível fazer poesia em sã consciência?

Claro, a poesia pode ser feita em qualquer estado de espírito. Não precisa ser necessariamente com alucinógeno. A poesia em si é um delírio. A própria poética é um ato de transgressão na medida em que a poesia trata de coisas invisíveis do planeta, lida com forças invisíveis.

 

A sua poesia atinge um estado de fervura, é instintiva e visceral. No entanto, durante todo esse tempo prevaleceu na literatura mundial, um zelo  politicamente correto, principalmente por essa literatura que ganha prêmios. Você sente que atira pérolas para os porcos?

Atiro pérolas para aqueles leitores que me lêem, que gostam de mim.

 

Para os poucos, não para os porcos.

Para os poucos. O próprio Octávio Paz diz que “a poesia é uma arte minoritária”.

 

O que você pensa da FLIP e desses escritores que participam dos debates?

O que é FLIP?

 

Festa Literária Internacional de Paraty.

Deve ser um acontecimento turístico.

 

Eles convidam escritores de renome internacional , como Mia Couto, Amós Oz, Lillian Ross, J.M. Coetzee.

É ligado à mídia e isso não me interessa.

 

Você não participaria?

Depende. Se pagarem bem, eu vou. São coisas amadorísticas e isso não me interessa.

 

Você tem lido novos autores, principalmente os paulistas que, de certa forma, se consideram “marginais”?

Eu não conheço esses novos escritores marginais, não tive oportunidade de conhecer.

 

No poema “O Andrógino Antropocósmico”, você diz que “o leitor quer dar & tem medo”. O que a poesia quer revelar e tem medo?

Quer revelar o lado escuro da Lua [rs]. Pink Floyd ...

 

Sobre as críticas que tenham atingido a sua literatura e a de outros, o que é pior na crítica literária: a tentativa de ignorar o sexo, a classificação de tudo que é libertino como sujo ou a busca pela racionalização do desejo?

Tudo isso é muito ruim, porque não tem que se colocar problemas de comportamento, tem que colocar problema de cultura. É um atraso de todo um país que vai atrás disso. Não é problema de comportamento, é problema de cultura.

 

Você lê crítica literária sobre você ou sobre outros escritores?

Eu leio por curiosidade quando sai.

 

Mas isso te afeta? Você fica bravo?

Não fico bravo. Não tenho sido malhado.

 

Você tem sido elogiado, de forma acadêmica, inclusive.

Eles descobriram, né?

 

Quem você lê?

Nossa, tudo isso aí [aponta para pilhas de livros que estão em sua sala]. Tem mais um armário cheio, e dentro do quarto tem mais dois.

 

Aqui tem de Dante a [Alejandro] Jodorowsky.

Exatamente.

 

O que você está lendo agora?

Estou lendo “Psicomagia”, do Jodorowsky.

 

Podemos dizer que os aquários da imaginação brasileira se racharam?

Sim, mas o Brasil que eu lido não é esse. Eu não lido com o país inteiro, eu lido com grupos, com pessoas, com indivíduos.

Piva, o que é brasilidade?

Não sei. Vinícius [de Moraes] dizia “pátria minha é o grande rio secular que bebe nuvem, come terra e urina mar”. Talvez seja isso.

 

Em “O século XXI me dará razão”, manifesto escrito em 1984, você critica  “seu sindicato policial do crime, seus gângsteres ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês de direita, seus cérebros de água choca”. Como se sobrevive num mundo em que essas pessoas e instituições mandam?

Sobrevive com vaselina no corpo. Você tem que ser escorregadio.

 

E ninguém te pega?

Eles pensam que pegam, mas não pegam.

 

Quem é que está ouvindo os seus urros pelos “poliedros da justiça”?

Tem vários tipos de pessoas, de todas as classes sociais. Tem muita gente que compartilha com essa visão de mundo ainda.

 

Você diz que tem contato com alguns grupos de pessoas que não compartilham essa visão de mundo generalista. Acreditamos que você tenha contato com jovens, interessados em literatura. O que lhe provoca esta juventude de agora? Qual tipo de sentimento, de opinião, de impressão?

Você está falando das pessoas que gostam da minha poesia?

 

Sim, com as quais você dialoga.

Eu gosto muito de falar com as pessoas.

 

Há semelhanças com a sua geração ou são coisas totalmente diferentes?

Tem coisas diferentes, mas tem pontos de ligação muito grandes.

 

O comportamento desregrado é uma herança? É visível ou é um estilo wannabe: “eu quero ser desregrado, anarquista e livre”?

[Pier Paolo] Pasolini dizia que tem três tipos de adolescentes, de pessoas jovens, que são as mais sacrificadas na sociedade: os jovens homossexuais, os aristocratas do norte da Itália e os cultos. De todos, os mais solitários são os cultos.

 

Esses são os que você tem visto com mais freqüência?

Eu tenho visto de tudo. Não fico só nesse tipo.

 

E os demais? Há uma bestialidade maior no restante?

Pessoas medíocres eu evito, porque burrice pega. Você vê que o país está atravessando um período de burrice enorme com esses ditadores de esquerda no poder.

 

O que lhe incomoda mais: a pressão acadêmica e intelectual, que cobra do escritor uma postura nacionalista, ou a especulação sobre sua posição política?

Engraçado que não me perguntam da minha posição política, porque sabem que eu sou monarquista. Desde 1958, eu sou monarquista. Percebi que a grande maioria do povo brasileiro é aristocrata, mas caíram nessa conversa de Lula, de PT, de “uísquerda”, da esquerda do uísque. O cerebrozinho deles é reduzido, só cabe aquela meia dúzia de chavões para poder analisar a realidade. E a realidade é oscilatória, não é linear.

 

O que é pior: PT ou PSDB?

PT é um lixo. Nunca votei no PT. Voto em qualquer partido, menos no PT. O PT é aliado do governo criminoso de Cuba. Lula é um produto da “uísquerda” da USP e de Ipanema. É um governo de pessoas corruptas e medíocres. É preciso varrer essa gente do poder.

 

É pseudo-comunismo?

PT é o fascismo de esquerda. É aquilo que Pasolini chamava de “o fascismo vermelho”, termo criado pelo Wilhelm Reich.

 

Cite um “estrangeiro na legião”.

Nossa, tem tantos. [Antonin] Artaud, [Henry] Michaux, [Dino] Campana e os poetas beats americanos.

 

Você já tinha sido publicado na “Antologia dos Novíssimos” do Massao Ohno, quando entrou em contato com a poesia de Allen Ginsberg?

Eu não tinha contato nenhum com a [poesia] beatnik quando comecei a escrever, tanto que é uma poesia completamente diferente da “Antologia dos Novíssimos”.

 

Você leu logo depois?

Li logo depois os beats, em 60, 61.

 

Isso mudou sua vida ou você já estava contente com Dante, com essa outra atmosfera?

O que me mudou a vida foi a vida. As circunstâncias, a visão não-linear do mundo, essa coisa toda.

 

Entrevistamos Massao Ohno [editor de Piva durante muitos anos] recentemente. Ele declarou que nem ele nem você, nos anos 60 e 70, tiveram qualquer problema com a ditadura, já que ele era filho de militar e tinha costas quentes. Você teve algum problema em tempos de ditadura, logo a partir do primeiro livro, “Paranóia”?

O perigo em qualquer ditadura é o guarda da esquina, não é o general. A polícia toma o freio nos dentes e fica extremamente arbitrária. Muitas vezes, bêbado na rua, de madrugada, você era preso para passar o fim de semana. Chegava na cadeia, te roubavam tudo. Os carcereiros faziam um rapa e te soltavam.

 

Você passou por isso alguma vez?

Duas ou três vezes.

 

O escritor Reinaldo Arenas foi severamente reprimido pela ditadura de Fidel Castro, em boa parte devido à homossexualidade. Ele dizia que a homossexualidade lhe garantia inspiração e libertação. Isto está no livro “Antes que anoiteça”, a autobiografia dele. O homossexualismo influi no seu instinto libertário, na sua escrita libertária?

Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Octávio Paz dizia que “a poesia é subversão do corpo”. Então, seja no corpo que for – homossexual, heterossexual, bissexual – ela estabelece a sua própria corrosão. Essa frase dele já é uma crítica à sociedade organizada. Nos países totalitários, a homossexualidade representa uma ameaça para a pequena burguesia do poder, vide ex-URSS e Cuba que até hoje encarceram e matam homossexuais.

 

Mala na Mão & Asas Pretas para quem?

É uma forma de dizer que você está em trânsito no planeta.

 

Você se considera em trânsito, sempre?

Estou em trânsito e quando morrer não voltarei jamais.

 

Sobre o período em que você dava aulas, não era incômodo partilhar um conhecimento tão formal e quadrado?

Aula não é esse tabu. Você fala sobre o que quiser.

 

Você dava aula de poesia?

De poesia. E dava Gilberto Freire para eles lerem. Tudo aquilo que a esquerda não dava.

 

Você foi produtor de shows de rock. Era o rock para você uma expressão contrária àquela obrigatoriedade de se fazer MPB, de se fazer canção de protesto, engajada?

Nunca me liguei nessa canção de protesto, tudo isso é um lixo. Eu promovia show de rock para ganhar dinheiro, para sobreviver, e porque eu gostava. Não dava muito dinheiro, mas eu gostava. Foi um período muito criativo, conheci muitas pessoas interessantes, mas cabeça de roqueiro, como de bofe, é cabeça de congo belga, muito limitada.

 

Foi curta a carreira?

Eu produzi shows durante dois anos.

 

Você pintou algum desses quadros que estão aqui? [em referência aos quadros que cobrem as paredes da sala do seu apartamento]

Não.

 

Você tem outra vocação artística?

Não tenho.

 

Essas obras de arte lhe foram presenteadas?

Sim, tem Rubem Valentim, Rodrigo de Haro, artista plástico absolutamente genial, Wesley Duke Lee com dedicatória, tem vários. Eu troco de vez em quando, coloco pôsteres dos jazzmen.

 

E tem um Milles Davis e um John Coltrane.

Sim, fotografia e pôster.  

 

Nenhum Thelonious Monk?

Não, não achei.

 

Estamos vendo aqui na estante uma embalagem do “Roma”, seriado produzido pela HBO...

Que eu ganhei do [João Silvério] Trevisan. Foi presente de aniversário antecipado que ele me deu.

 

Você assistiu “Roma”? O que você acha desse retrato que os produtores da HBO estão fazendo?

Achei brilhante. Pela pesquisa que eles fizeram, é brilhante.

 

Falando em Roma, seu filme favorito é “Satyricon”, do [Federico] Fellini ...

E um dos livros que eu também mais gosto. Do Petrônio. Vocês gostam?

 

De ambos, Petrônio e Fellini.

É uma beleza esse filme. Está absolutamente de acordo com o livro. É a descrição que o Petrônio faz da nova classe, que era a dos escravos libertos, com os quais Nero governou. Por isso que ele era mal-visto, apesar de ser um aristocrata. A classe senatorial nunca perdoou Nero por ter governado com os escravos libertos.

 

A editora Globo já lançou dois volumes de suas obras reunidas – “Um Estrangeiro na Legião” (2005) e “Mala na Mão & Asas Pretas” (2006). Vem aí o terceiro, “Estranhos Sinais de Saturno”. Fale um pouco sobre o último volume, quando vai ser lançado e quais são suas expectativas.

Provavelmente vai ser lançado no dia do meu aniversário. Eu faço 70 anos no dia 25 de setembro. Não está certo ainda porque tem muita coisa inédita que está aqui, e eu preciso passar para eles. Tem um livro já publicado que vai sair nesse último volume também, o “Ciclones”.

 

De todos os seus livros, qual o seu preferido?

Gosto do “Ciclones”.

 

Que por sinal é o mais recente. Por que?

Porque as minhas mais queridas vivências estão lá.

 

Que são as vivências mais recentes também?

Não, não necessariamente.

 

Piva, o que lhe faz sorrir e o que lhe faz chorar?

De tudo é possível você rir e chorar.

 

Depende do quê?

Aquilo do [William] Blake: “o excesso de alegria chora, o excesso de tristeza ri”.

 

De que material é feito Roberto Piva?

[silêncio] Material extraterrestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bibliografia:

 

FRANCHETTI, Paulo. "Pós tudo: A Poesia Brasileira depois de João Cabral". In: Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007. 

 

 

 

 

 

Paula Dume é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, integrante da equipe do veículo impresso e independente Catarse, rascunha linhas nas revistas eletrônicas Speculum e Scream & Yell. Para ela, cinema não é escuro e a tela importa. Chove de vez em quando em http://descompassada.blogspot.com. E-mail: pauladume@yahoo.com.br.

 

Renata D´Elia é paulistana, tem vinte e poucos anos, e escreve sobre música, cinema e literatura para veículos da internet. Também trabalha como tradutora. Ela pode ser encontrada falando pelos cotovelos nos calabouços e arredores da Faculdade Cásper Líbero.
Blog: http://deliaboard.blogspot.com. E-mail: deliabord@yahoo.com.br.


Blog EntryGlauco Mattoso- entrevista TripJun 5, '07 6:37 PM
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Entrevista com
Glauco Mattoso

Glauco Mattoso é poeta, escritor e formado em biblioteconomia e letras. Além disso, é o mais ilustre pedólatra brasileiro. Quem lia Chiclete com Banana deve se lembrar de seus textos e dos de um tal Pedro, o Podre, no encarte JAM. Pedro, alter ego de Glauco (não confundir com o cartunista Glauco de Los Três Amigos) escrevia artigos escatológicos e anarquistas, apresentando bandas punks e o mundo underground paulista. Antes disso, nos anos setenta, Glauco já divulgava por aí sua tara por pés em prosa e verso no Jornal Dobrabil, publicação escrita e diagramada por ele numa máquina de escrever. De uns anos pra cá, cego devido a um glaucoma (glaucomatoso, seu pesudônimo, é como se chama quem sofre de glaucoma) Glauco diz que o desejo por pés só tem aumentado. Em entrevista à Trip, o papa da pedolatria explica melhor essa fixação por pés, botas, calçados e afins.

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O ÁUDIO DA ENTREVISTA

Trip - Os pés são a parte do corpo que mais te atrai numa pessoa?
Glauco Mattoso - É, exatamente, sempre foram. Agora mais ainda porque depois de cego a gente se orienta pelo tato.

Trip - Desde que você era pequeno já tinha essa predileção?
Glauco - Ah, sim. Eu tive uma experiência quando criança, eu era muito isolado, muito quieto, muito estudioso e os meninos mais velhos abusavam de mim. A tal história do CDF que vira uma espécie de mascote na mão dos outros. Eles brincavam comigo me obrigando a beijar pé, essas coisas. Aí eu comecei a ficar com fixação.

Trip - Tem uma história sobre um trote no Mackenzie...
Glauco - Pois é. Bem depois, quando eu já era universitário eu presenciei uma cena de trote no Mackenzie onde os calouros eram obrigados a engraxar o sapato dos veteranos, mas com a língua. Então eu fiz uma coisa que precedeu a minha carreira teatral. Depois disso eu acabei fazendo teatro amador. Eu me disfarcei de calouro - eu era estudante de biblioteconomia, que era ao lado do Mackenzie - e apareci lá, no meio dos outros calouros, pra ser humilhado da mesma forma e fui submetido ao mesmo tipo de trote. Eles não chegaram a perceber. Só revelei isso depois pra outras pessoas.

Trip - O tesão por pés está ligado ao masoquismo?
Glauco - Tá muito ligado. O tesão por pés é uma coisa muito forte, muito arraigada. Não é masculino nem feminino, existe nos dois sexos. O pé tem tanto uma simbologia fálica, no caso do pé masculino, como uma simbologia de dominação e submisão, porque ele estando ao nível do chão, ele pisando, ele humilha. Então a pessoa que fica embaixo está sendo humilhada, e isso vale também pro homem em relação a mulher. Por isso que o sapato feminino quando tem salto muito alto, bico fino, formatos assim muito pontiagudos, também excita o homem, no caso do fetichista masculino.

Trip - O que você acha que há de melhor nas artes para o público pedólatra?
Glauco - Existem vários filmes que contém cenas de pedolatria. Mas até agora não vi um que trate exclusivamente disso. O que existe são fimes que trazem cenas de pedolatria. A minha preferência é por uma cena do filme Laranja Mecânica, do Kubrick. Esse filme tem uma cena de pedolatria em que um cara, o Alex, é obrigado a lamber o sapato do outro. Na literatura sim, existe toda uma tradição de pedolatria que vem desde a história da Cinderela, no caso do pedólatra que gosta do pé feminino. No Brasil nós temos um romance do José de Alencar, chamado A pata da gazela, que traz uma personagem que calça 29, a tal gazela.

Trip - Que tipo de pé mais te interessa?
Glauco -O pé masculino que é considerado bonito é o pé escultural, arqueado e de formas bastante arredondadas. É o pé da estatuária greco-romana e que também aparece no Renascimento. Agora, no meu caso, como eu sou uma cara anti-estético, um anti-esteta, eu prefiro sempre aquilo que foge à regra da beleza comum. Então no meu caso a preferência é pelo pé chato, grande e até mal-cheiroso.

Trip - Você conhecendo uma pessoa (pelo menos antes, quando você via), você consegue imaginar o pé dela?
Glauco
- Às vezes. Existe uma dica pra você imaginar o pé da pessoa: é só observar a mão. Através do formato da mão, se os dedos são mais arredondados, mais alongados, se a mão é mais gorda o pé também acompanha esse desenho. E é claro, em relação a estatura do corpo você também tem uma idéia. Apesar de que no Brasil isso não vale muito. Se você tomar por base os jogadores de futebol, por exemplo: um jogador alto, como era o Sócrates, calçava um número muito pequeno, é uma desproporção. Já no caso do americano, do europeu, é uma coisa mais lógica: se o cara é grandão ele vai ter o pé grandão mesmo.

Trip - Uma pessoa feia com pés muito interessantes se torna atraente para você?
Glauco - Ah, com certeza! Eu nunca fui de reparar em fisionomia, em rosto, em corpo, se é alto, se é baixo, se é gordo ou se é magro. O que realmente me atrai é se o pé é um pouco maior em relação ao corpo. Se ele for desproporcionalmente grande em relação ao corpo melhor. Um jogador de basquete que tenha um pezão não me atrai, porque o pé tá muito harmônico em relação ao corpo. Agora, se o cara tiver a minha altura, mas calçar dois ou três números a mais que eu, aí já automaticamente me atrai.

Trip - Um pedólatra reconhece outro? Você identifica num ambiente alguém que tenha o mesmo interesse que você?
Glauco - Não. A menos se a pessoa tiver uma intuição muito aguçada. É praticamente impossível descobrir se um cara é pedólatra. Aliás isso vale para os fetichistas de maneira geral. Os fetichistas (o pedólatra em especial) são pessoas muito tímidas. Em geral eles não se revelam, ele não confessam a preferência porque têm vergonha de ser ridicularizados, das pessoas não acreditarem, não levarem a sério. Eles se consideram muito diferentes. Isso é o que eu pude constatar. Então eles acabam procurando outros pedólatras através de anúncios de revistas, de clubes...

Trip - Qual é o melhor lugar para um pedólatra, a praia ou uma loja de sapatos?
Glauco - Depende do pedólatra. Se for um pedólatra ao estilo clássico, aquele que observa apenas a beleza estética eu acho que praia, piscinas e lugares assim são os mais indicados. Agora, se for um cara mais exótico, assim como eu, que também gosta de sapatos, de botas, pessoas calçando botas em geral bem usadas, surradas, aí eu acho que qualquer ambiente urbano é interessante. Um ambiente militar, um esportivo, até executivo às vezes, dependendo da situação.


Blog EntryJorge MautnerFeb 26, '07 7:36 PM
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copia e cola

Marcus Vinicius Jacobson

Reportagem

Entrevista realizada no dia 08/12/2004

1) Qual o balanço que você faz desses 45 anos de carreira ?

Kaótico, positivo, otimista e fatal.

Mautner e sua relação com as composições de sua autoria

2) Você é considerado um dos compositores mais gravados em vida. Como se sente em relação a isso ?

Gostaria de dizer que não sei se é verdade isso aí. Mesmo assim, minhas composições, com ou sem parcerias, foram gravadas por muitos e muitas intérpretes de nossa música. Não apenas isto me dá uma enorme felicidade assim como me deu, e dá, e dará o dinheiro para o sustento da minha vida.

3) Você já foi chamado de Mestre por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Como é sua relação com eles ?

A minha relação com eles é de profunda amizade e de um intenso partilhar de idéias, confissões e sentimentos.

4) Um profissional multimídia e gênio das artes. Esses dois conceitos fazem aumentar sua responsabilidade em relação às suas composições ?

A minha responsabilidade sempre foi demasiada pelo motivo de ser eu o filho do holocausto. Eu seria cinza de forno de crematório de campo de concentração nazista se não tivesse nascido no Brasil. Toda a minha obra literária, musical e minha própria vida tem sido determinada por esta missão.

5) Dentre as diversas áreas que você atua, alguma em especial te dá mais prazer? Por que ?

Minha música é a minha literatura cantada. Minhas ocasionais incursões no cinema e na pintura fazem também parte desta mitologia do kaos, e tudo isto se confunde com minha vida. Tudo isto me dá prazer e tudo isto leva a descoberta do outro.

6) Fale pra gente sobre seu mais recente CD.

O mais recente foi o disco meu com o Caetano Veloso intitulado Eu Não Peço Desculpa, uma das maiores felicidades da minha vida, disco este que ganhou o Grammy de 2003 como o melhor disco da MPB.

7) Em falar nisso, tem algum novo trabalho em vista que já está engatilhado ?

Estou aqui na Dig Produções cuidando exatamente deste assunto. Espero que para 2005 eu apresente um novo CD com um sonhado DVD e com músicas novas para o meu querido público e para esta nova geração que tanto tem prestigiado meu trabalho.

O artista junto com Caetano Veloso: Uma parceria vitoriosa !

8) Qual análise que você faz sobre a a música que é produzida atualmente ?

Com a vitória da democracia e plenitude em quase todo o planeta as formas de criatividade mais inusitadas cheias de multi diversidades estão pipocando por aí. A eletrônica com os batuques e as danças frenéticas fazem as pessoas cantar e dançar ao predominante som do Hip-Hop, do Funk e do Rap além das outras tradicionais e até mesmo folclóricas. É um êxtase retumbante.

Mautner dando seu recado final

9) Em algum momento, te incomoda o fato da mídia dar pouco espaço para cantores de qualidade como você, Chico Buarque e muitos outros e divulgar somente músicas descartáveis ?

No livro mais antigo da humanidade, o Upanishad, a primeira frase é: tudo é sofrimento. E logo em seguida lê-se: gostar de tudo que acontece.

10) Deixe um recado final para seu imenso público.

Infinitos beijos e um imenso abraço de carinho e também a notícia de que os estudantes de medicina em Curitiba inauguraram o primeiro clube filosófico do Kaos com autonomia total de decisões e ações. Lembrando ainda que de todas as serpentes da caixa de Pandora, que eram as serpentes da intriga, da maldade, da cobiça, da hipocrisia, da mentira, etc, a última serpente a sair desta caixa, a mais terrível de todas elas era a esperança. E também, como dizia meu pai: do jeito que você fizer meu filho, você estará sempre errado. E só para finalizar: viva a ressurreição a cada instante!!!! Se alguém quiser se comunicar com o profeta do Kaos, o e-mail é jorge@jorgemautner.com.br !


Blog EntryFausto FawcettFeb 24, '07 10:56 PM
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Copacabana lua cheia
Fausto Fawcett
Entrevista com Fausto Fawcett

1. Qual o tema de Copacabana lua cheia?

FF: Vários são os temas abordados, mas eu diria que a segunda musa (a primeira é minha companheira de viagem social: Samantha Kelly Morgan) e assunto principal do livro é a globalização. E os ímpetos de promiscuidade social, comunicacional, antropológica, trágica que ela injeta nos nossos corações e mentes. Dúvidas e mutações são o mote do livro tendo como cenário Copacabana, único lugar no Brasil com características de mistura humana absoluta, num curto espaço geográfico, gerando sensações de vertigem urbana. São sete dias de ocorrências no bairro.


2. Você sempre escreverá sobre louras, Copacabana, caos? Não tem medo de ser estigmatizado?


FF: Muito pelo contrário. Costumo dizer que artista que é artista é escravizado e ao mesmo tempo libertado por suas obsessões, taras e princípios maníacos que tocam no nervo da sua imaginação. Extravagante saída de uma observação apurada e emocionada do cotidiano. Artista tem que ter coca-cola interior, ou seja marca registrada de fantasia e eu uso Copacabana, louras, caos, apocalipses tecnológicos, superficialidades pops e outras coisas mais para abrir divertidamente, sinistramente a cabeça e os olhos das pessoas: pra definitiva e maravilhosa estranheza catastrófica do mundo contemporâneo. Esse é o último de uma trilogia que começou com Santa Clara Poltergeist e continuou com Básico Instinto. Todos tendo como ponto de partida social o super-bairro. Agora não preciso especificar mais um lugar, pois para mentes extravagantes como a minha, o mundo tá muito confortável globalizado e sempre em crise como num infinito quadro de Bosch colado num cartaz de lingerie jogado por aí.



3. O que é ser escritor para você?


FF: Basicamente é botar um freio nos demônios, exorcizando a si próprio e consequentemente toda a sociedade junto. Para mim escritor sofre de esquizofrenia misantrópica: ao mesmo tempo que se comunica com todo mundo na calada das páginas, quer mais e que se foda tudo e todos numa festa de revelação de todas as vontades, desejos e taras. Qualquer artista tem muito de anti-social, pois o egoísmo é a base de seu trabalho. Não acredito em artista engajado nem em arte sustentada porque o que move quem escreve é a insustentável pertubação do estar vivo. Mas tem um lado menos dramático, bem normal que é do escriba prostituto-com-prazer. Topo tudo (mas não qualquer coisa): letra de música, livro de pornografia sórdida, relatório de polícia, roteiro de cinema, peça de teatro etc. Daí tiro meu sustento. Escritor é isso aí.

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Sobre os jovens:
- A juventude acabou. Nos anos 50, achavam que tudo estava na mão dos jovens, e eles se mostraram seres humanos como todos os outros: imbecis.

Sobre Freud e a psicanálise:
- São os sobrinhos do patológico: Euzinho, eguinho e selfzinho.

Sobre o repórter policial da peça:
- Ele segue o lema dos Humanistas Anônimos: "Há 2.254 dias deixei de desejar um mundo melhor".

Sobre a democracia:
- É um garoto jogando bolinha no sinal. Uma bolinha é a anarquia da favela, a outra é a tirania das máfias. Uma passando a mão na bunda da outra.

Sobre o Hamlet dos nossos dias:
- O Hamlet contemporâneo não segura mais a caveirinha. Fica com um celular averiguando a quantas andam os seus sentimentos: 10% amor, 90% ódio dos pais.

Ainda sobre Hamlet, e sobre a vida:
- Ser ou não ser virou privilégio dos travestis.

Sobre a vida, de novo:
- Depois dos 40, quem ainda fica com papo juvenil tem que sacar o FGTE, o Fundo de Garantia por Tempo de Existência.

Ainda sobre a vida, agora aos 50 anos:
- Augusto dos Anjos que me perdoe, mas meu poeta favorito agora é Sérgio Franco. O laboratório.

E a moral da história:
- Você está nervosa porque o sociopata se tornou o herói contemporâneo? Calma, chuchu.

 

 

Fausto Fawcett

A cara de Copacabana

Fausto FawcettJornal Copacabana: Ao longo da sua carreira, Copacabana está presente na maioria de suas músicas, livros... Você traz a tona o submundo das armas, camelôs, “cachorradas”, pornografias e o que a sociedade considera transgressão. O bairro é o seu preferido. Isso é uma tara? Qual a sua relação com Copacabana?
Fausto Fawcett: É uma tara completamente pertinente e justificável do ponto de vista de uma animação para a vida e para produzir artisticamente. Tenho uma imaginação extravagante... Unindo isso a um bairro, uma cidade e um país que também são... (risos) Digamos que Copacabana seja o resumo do país. A paixão pelo bairro tem a ver com esse clichê que é essa mistura absoluta, essa promiscuidade democrática que atinge todo tipo de pessoas, de todas as classes sociais.
Mas o principal é a tara cosmopolita! Eu tenho e que Copacabana aumentou. Nos outros lugares tem tudo que tem aqui, mas disperso. Em Copacabana tudo está concentrado.
É absurdo dizer que quem tem grana, hoje, está indo morar na Barra! Não é verdade. Tem muito rico camuflado em Copacabana. Milionários se mudam para cá até hoje!
A riqueza do bairro, a oferta de gente e de natureza abafam o que dizem sobre ser sufocante, aqui tem mata e tem um horizonte enorme para nos refugiarmos.
Copacabana foi emergente em 1930!

J. C.: Acredita que o bairro tenha alcançado o “sub” nos últimos 60 anos?
F. F.: Na verdade esse submundo sempre existiu. Se pegar uma revista de 1950, quando tinha o glamour que deu fama ao bairro, você vai encontrar reportagens falando sobre o glamour do submundo de Copacabana. Porque, também, os outros submundos não tem glamour! (risos). Os inferninhos começaram a se estabelecer como cartão postal do submundo. Copacabana é difere