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Blog EntryApr 14, '09 3:41 PM
for everyone
Ando com um monte de nóias reais na cabeça. Fora uma ou outra feroz, tento dar ao resto uma certa aura artística. Mas no fundo, estou apavorado. A idéia de que "todo mundo é humano, todo mundo é amigo" me arrepia dos pés a cabeça e tenho a certeza de ser o mote de uma espécie de campanha subliminar que permitirá a uma raça alienígena parasita incorporar-se aos indivíduos humanos, criando uma nova forma de vida híbrida. Ao menos metafisicamente. E os alienígenas não sabem de porra nenhuma do que rola por aqui. Por isso, eles usam a mente humana ao mesmo tempo que as destroem, ficando a pessoa "meio boba" ao mesmo tempo que evolui para essa metamorfose, esse amálgama: meio subproduto de faculdade, meio nazi-etê. Ninguém sente falta de livros queimando, no entanto. Destoá-los da realidade e da compreensão humana é mais que suficiente. Livro é produto humano, logo, lixo. A única transcendência decente de nossa repulsiva forma carnal é PODER. Senão for bem por aí, tenho outra teoria. Essa você não pode negar. No máximo, me considerar um psicólogo fajuto. O que já é muito, pois nunca tive saco pros caras, os psicólogos. Agora, ando revendo isso. Enfim, a idéia é simples: todos, sem excessão, estamos sendo incorporados involuntariamente por arquétipos de criaturas diversas, mas de nível inferior. Criaturas baixas no escalão hierárquico de criaturas arquetípicas. Estando sendo manipulados em níveis inconscientes, etéreos, espectrais, INSONES, lúdicos e oníricos. Extra-sensitivos. Ou seja, somos controlados em vários níveis de inconsciência involuntária. É simples, você não pode vê-los em certos estados, porque não consegue ver a si próprio nessas condições. Mas eles estão acordados, esperam insandecidamente por esses momentos, quando começa o marionetismo. São seres incontáveis, formados de restos. Veja, existiu Raul Seixas e depois dele, um infindável exército de seguidores e simpatizadores, todos querendo ser Raul, ou considerando-se parcialmente Raul. A mesma coisa com Lennon, Cobain, Marx ou até mesmo Sérgio Malandro. Agora, junte o resto que sobrou dessa moçada, o inalienável fracasso de querer ser alguém que já existe, as partes que não produtivos, as partes não idolotradas. Junte um pedaço do bebum mendigo da rua que sabe todas as músicas do Raul contidas na coletânea X que ele comprou há 40 anos atrás,e que no entanto, não sabe porque brigou ontem e se a boca inchada está nessas condições desde o mês passado ou se esse é o machucado novo. Sem contar a purulência das feridas, que servem de medida para o limite do ego do sujeito, e este não decidir virar metrossexual, além de servir de álibi para o ódio resignado de qualquer um que não ande fedendo suor por aí. Então, também temos o drogado fracassado, o sujeito que descobriu que Kurt Cobain não era só um lunático fiadaputa destruidor "esse era lôco", mas também uma pessoa extraordinariamente talentosa. Ao menos o mínimo pra estourar a cabeça e cair fora desse mundo merda mostrando o dedo do meio ao mesmo tempo. O cara viciado só vai entender isso depois da primeira overdose. Mais precisamente, depois de ver que vai ter que continuar vivo depois da primeira overdose, arranjar um emprego, lamber um chefe e lutar pra não ser um medíocre pelo resto da vida. "Nirvana é o caralho, já foi tarde"- é o que boa parte pensa. E a MTV não vai fazer um especial pro siclano por ele querer ser grunge até a morte. A morte chega antes que a MTV. Agora junte essas duas almas comuns e penadas, ambas niveladas a partir do chão. São equivalentes enquanto irrealização, indeterminação. Suas individualidades e idiossincracias foram esmagadas pela vala comum. Junte as duas, porra, é isso que estou tentando dizer faz meia hora, junte-as e pense numa transcendência comum para o novo ser que surgiu da junção. Ele alcançou o sucesso pela metafísica, ser indeterminado, de procedência comum e mística, transcendental, vinda do nada e pulando para o nada, onde viverá o infinito: um monstrinho no inconsciente coletivo. E são esses monstrinhos que regem nossas características, nossa busca pelo novo, por determinações de personalidade. Ou não tem porra nenhuma a ver. Mas assim acredito.

Blog EntryApr 14, '09 3:24 PM
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Um sinal gráfico é só um sinal gráfico

GG e a novíssima literatura contemporânea, GG e suas imprecações teológicas teóricas, GG e seu apoio à literatura amadora(marginal?), GG e suas poses em fotos solenes, GG posando com os medalhões, GG bem situado no cenário local, GG e suas declarações de solenidade, GG amigo de grandes autores atuais, GG transcedente sua condição tragicômica, GG aparecendo num jornal, GG é amigo de todo mundo, GG só não gosta de mim. O blog de GG despontando na parada, GG fazendo mais amigos poetas, GG e sua nova sacada na poesia, o próximo poema "quase" de GG, GG tirando onda como "o poetinha", GG e sua indiferença iconoclasta, GG e sua pederastia iconográfica, GG e seu novo poema fraturado, GG o cara que realmente tem a ver com Nietzsche, GG o metaleiro eclético, GG vai ficar por dentro das paradas, GG se sentindo confortável com chantagem emocional, GG é isso aí mesmo e não tem conversa, GG a velha madrasta da literatura, GG a grande putona da literatura, GG a cafetina literária. GG o socialista com um apartamento central ganho de uma "tia-in-law". GG e seus amigos poliglotas. GG e seus amigos do doutorado. GG e seus amigos que me olham torto. GG me considerando um desafeto. GG o cara que sem entraves socias. GG perguntando sob minha sociopatia. GG também sendo sociopata. GG ficando psicopata. GG tá de olho no sinhô. GG e seu olho de águia. A tese de GG. O filme que GG viu. GG é sempre o protagonista. GG "cale-se senão você me deixa louco". GG influente no meio cultural. GG influente na sociedade. GG me perguntando se já tenho participado da vida socia. GG me perguntando se estou tendo uma pira kafkiana. GG me intimando prum baseado. GG desconfiado da minha subjetividade. GG falando de mim para sua esposa. GG falando de mim para suas amigas. GG escreve sobre putas mas acho que tem nojo. GG glosando as putas. GG me glosando. GG dando apoio pra todo mundo. GG fazendo comentários supimpas. GG e seu amigo menos talentoso e candidato a bom moço(e nossos cramunhoezinhos para sempre guardados nas garrafas).GG ficando iconoclasta. GG tendo super sacadas. GG amando Caetano. GG sendo defendido por mais um poeta. GG sendo admirado. GG não suportando o alheamento. GG fazendo você pagar. GG tratando você de maneira diferente. GG e o tempo que não volta mais. GG ficando raquítico. GG fazendo uóó. GG da malandragem. GG citando Marx. GG cansado das ruas. GG com medo da polícia. GG querendo sua revista emprestada. GG escrevendo um artigo. GG sentindo que gostaria de ter status. GG sentindo a guerra de classes. GG com descendência nordestina e italiana. GG amado. GG com tesão pelas menininhas. GG e suas incursões no erotismo. GG flertando com o funk carioca. GG lendo os grandes teóricos. GG magoado com a filosofia. GG e seus textos irrefutável (ah, meu Deus, quantos GGs)! GG pegando uma influência sua. GG liberando a influência pra rapaziada. GG não regula referências. GG não regula nada. GG só regula o horário pra você tocar a campainha da sua casa. GG acha que estou pagando de marginal. GG acha que só leio autores bêbados. GG acha que estou sendo clichê. GG acha que estou ficando esteriotipado. GG achando que quero ser uma lenda. GG reparando a minha roupa nova. GG gostou do meu casaco. GG queria ter um casaco como o meu. GG tem uma esposa que ganha mais do que ele. GG nos tempos da modernidade. GG dizendo "esse caaara". GG não gosta do eu-moderno. GG agora gosta do eu-moderno. GG vai pesquisar o eu-moderno. GG ficando metafísico. GG sendo uma pessoa de verdade. GG niilista. GG terrorista. GG defendendo o proletáriado. GG se dando bem defendendo a voz dos oprimidos. GG meio que encara os nazistas. GG meio que se sente um nazista de boa. GG meio que vira niilista. GG reacionário glosando Nelson Rodrigues. GG tropicalista. GG manifesto antropofágico. GG não sabe bem o que tá rolando. GG não sabe bem o que significa. GG sabendo de tudo. GG citando tudo. GG lendo tudo. GG estudando tudo. GG manjando de tudo. GG nega véia. GG tirando onda. GG bebendo absinto. GG bebendo cerveja. GG em companhia do cigarro. GG sem amigos. GG sem a patroa. GG acha que sou débil mental. GG ficando de fora. GG super bacana. GG cavalinho. GG falando a verdade na sua cara. GG sabe lidar com tudo. GG perdendo emprego de professor. GG gostou de um texto seu. GG não te deixa falar mal de nada. GG fala mal de tudo. GG lendo Harry Potter. GG ouvindo Nick Drake num dia de chuva. GG o anti-lírico. GG o ultra-lírico. GG o pós-moderno. GG com raiva do pós-moderno. GG fechando o livro. GG abrindo o livro. GG opinião sobre tudo. GG personalidade. GG além do tempo-espaço. GG além do bem e do mal. GG transpondo limites. GG encerrando paradigmas. GG não dá mole pros paradoxos. GG mago. GG profeta. GG cientista. GG ou tudo ou nada. GG em nome do salvador. GG flerta com o capeta. Ninguém discorda de GG. GG sabe tudo. GG é tudo. GG tem opinião sobre tudo e nunca fica sem personalidade. GG tem a verdade sobre tudo. GG te sugou. GG vai te sugar. GG percebe a mais fina nuance da sua personalidade. GG percebe seu lado grotesco. GG lê teus pensamentos. GG ficando ácido. GG e sua verve particular. GG não tem fraqueza. GG não erra nunca. GG tem mira boa. GG "arrendando" intelectuais; GG não é gado. GG não se revolta a toa. GG é ixperto. GG sabe ser conversador. GG odeia minha irmã loura de olhos azuis. GG assassino cruel de criancinhas. GG fazendo uóó. GG manja da pedofilia. GG também lê Bataille. GG até cita Bataille. GG também tá ligado no Deleuze. GG não curte gírias. GG acha que falo muito "cara". GG é o amigo que dá toques. GG freguês dos barzinhos. Quando GG se excede, ele está certo. Quando GG está indiferente, ele está certo. Ninguém derruba o ego de GG. GG paranóico- certo. GG neurótico-certo. GG até parece eu. GG até parece você. GG é ainda maior. Engula seco quando vier de GG. O que GG fala é super ácido e incontestável. GG está por cima da carne seca. Nunca reaja à GG. GG ficando sensível. GG ficando durão. Estamos juntos nessa jornada GG. Vamos ao cinema juntos GG. Vou visitar seu blogue todos os dias GG. Vamos a palestra juntos GG. Estamos nessa luta juntos GG. Gostamos das mesmas coisas GG. O mesmo sentimento GG. A mesma vivência GG. As mesmas leituras GG. Pensamos igual GG. Estou nessa por você GG. Você está nessa por mim GG? Eu quero fazer tua caveira GG? Vamos puxar a orelha da academia juntos GG. Vamos fazer isso pelo mundo GG. Vamos fazer isso pela verdade GG. Vamos fazer isso pela força GG. Vamos fazer isso por todos GG. Vamos fazer isso por nós GG. Será que dói puxar a orelha da academia GG? Ela é só uma mula manca GG? Ela é nossa tia malcomida GG? Ela é nossa velha amiga broca GG? O que está acontecendo GG? Eu estou te cobrando GG? Eu estou morrendo GG? Ninguém está morrendo GG? Os meus fantasmas, GG, que será dos meus fantasmas, GG? Porque eles não evaporam GG? Porque eles respiram meu nome GG? Você quer ser um deles GG? Você vai ser um deles GG? Você ainda me ama GG? Você quer ser meu parceiro de cama GG? Você está louco GG? Você está brincando de ser viado GG? Você já fez troca-troca GG? É bom GG? Me ensina GG? Não tem ninguém olhando GG? Vamos puxar um fumo GG? Vamos puxar um ferro GG? Você vai regular sua rodela GG? Não tem mais absinto GG? Ó GG velho de guerra. Vá tomar no cu GG. Só eu te acho feio GG. Só eu te acho chato GG. Só eu te acho sem graça GG. Eu não tenho esse direito GG? Que horas é a próxima sessão GG? Sua esposa está viajando GG. Mas aí não tem graça GG. Você só me convida quando ela viaja GG. Você está viajando GG. Está me assediando GG? Porque não tenta com alguém que curta GG? Ou você daria pra trás GG? Ou nunca daria GG? Qual é a sua GG? Quem é você GG? Quem disse que eu me importo GG? Por que sou obrigado a me importar GG? Como está sua avó GG?
Ah batemos boca, GG. feito dois travecos numa esquina,GG. traveco tem raiva de moça, GG. moças de rosa, GG. traveco recalcado, GG. Mas vou fazer o seguinte, GG, vou abrir mão dessa tua superioridade de biba. Todos aqueles humpf, esse caaara, uóóóo, não me deixe no silêncio!, vou dar martelada!, aqui é com a nega, ai gente, porque não?, que que há, gente?, vamos escreva, bofe!, te matei, plebeu! ain, é o fim!!, ai, Milton Hatoun, ai academia, estou batendo meu pezinho, engula o meu charme e me ame, eu sou o rei da erva,tenho charme decadente de balzaca ... Isso tudo é teu, não vou mais me defender nem atacar, não vou reivindicar a superioridade de biba, como, no susto, a gente tende a fazer. Vou te deixar com o grande final apoteótico... E o inevitável gritinho de vitória: IUUUUULL-PII! Então seja feliz, Loca! Uma porra de um passeiozinho nas nuvens, metáforas, imagens e um humanitarismo escancarado.
Não vou mais me debruçar sobre esse incrível quebra-cabeças purpurinado. As imagens fortes, carregadas, como maquiagem. A máscara de sátiro, brandindo na minha cara, (com ajuda do irmão!)... e borrada de batom. E, como já era de se esperar, angaria exércitos. Todos para defender a Biba. A Biba particular, quem não defenderia? A Biba sempre tem as palavras certas de carinho, eu sei como é. A Biba também sempre carrega a verdade na ponta da língua, como um adorno. Quem não se encantaria? E uma biba que nunca fala grosso! Só dá liçõezinhas de moral, a torto e a direito. Mas isso é até bonito, charme de Biba. Mas, a pedra no meio do caminho, digamos... é que a Biba é de fato um macho! Quer ser chamada de homem, por pura vaidade. Uma Biba não cala a boca...
Ah, como é má... A Má...
GG e a esposa de rabo obsceno mais interessante de Buttown (devoção sincera e sem motivo para crise).


Blog EntryJul 2, '08 10:34 PM
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O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista.  Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava.  E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso.

Como no caso da música Eduardo e Monica, do álbum Dois da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente enquanto a feminina (Monica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos.

Analisemos o que diz a letra. Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente ("Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram") ao mesmo tempo que tentar dar uma imagem forte e charmosa à Monica ("enquanto Monica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram"). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã, como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura ("Festa estranha, com gente esquisita..."). Bom, "Festa Estranha" significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poder fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. "Gente esquisita" é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da Via-Láctea. Enfim, esta era a tal "festa legal" em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.

Assim temos ("- Eu não estou legal. Não agüento mais birita"). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Monica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground. Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram ("E a Monica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar"). Vamos por partes: em "E a Monica riu" nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Monica para com Eduardo. Ela, bêbada inveterada, ri de um bêbado inexperiente!

Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se "quis saber um pouco mais" leia-se "quis dar para"!  É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Monica. A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho que tentava impressionar"!  É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como "boyzinho"... Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Monica de bicicleta, como consta na quarta estrofe ("Se encontraram então no parque da cidade A Monica de moto e o Eduardo de camelo"). A não ser que o Eduardo fosse um beduíno, e estivesse realmente de camelo, mas ainda nesse caso não seria um "boyzinho". Se alguém aí age como boy, esta seria Monica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 ("Ela era de Leão e ele tinha dezesseis") todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Monica.

E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu? Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Monica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo ("O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Monica queria ver um filme do Godard"). Atitude esta nada democrática para quem se julga uma liberal. Na verdade, Monica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto, em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado pra caralho e com muitas cenas de baitolagem.

Em seguida Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir suavemente à Monica ("O Eduardo achou estranho e melhor não comentar, mas a menina tinha tinta no cabelo"). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. À pouco vimos Monica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Note que Russo informa a idade de Eduardo, mas propositadamente omite a de Monica. Além disto, se Monica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril ou porque é uma baranga escrota mesmo.

O autor insiste em retratar Monica como uma gênia sem par. ("Ela fazia Medicina e falava alemão") e Eduardo como um idiota retardado ("E ele ainda nas aulinhas de inglês"). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar "iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda como são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas", para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente. Coitado do Eduardo, é um jumento mesmo...

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois ("Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud"). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.As, muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão "do Bandeira". Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí, cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar "Êta" com "Tiêta" e neguinho ainda diz que ele é gênio!

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo ("E o Eduardo gostava de novela") e crianção ("E jogava futebol de botão com seu avô"). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões!  É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.

Continuando, temos ("Ela falava coisas sobre o Planalto Central, também magia e meditação"). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada ... Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Monica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto ("E o Eduardo ainda estava no esquema "escola - cinema - clube - televisão"). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse "bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay - delegacia"?? E qual é o problema de se ir a escola, caramba?!?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Monica ("Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar"). Por ordem: 1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto. 2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo. 3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra ("A Monica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar"). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Monica trabalha na previsão do tempo? Não. Monica é geóloga? Não. Monica é professora de química? Não. Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba? Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência ...

Ainda em "Ele aprendeu a beber", não precisa ser muito esperto pra sacar com quem... é claro, com Monica, a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Monica! Grande contribuição!

Depois, temos "deixou o cabelo crescer". Pobre Eduardo. Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Monica na cabeça do iludido Eduardo. Sempre à frente em tudo, Monica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade ("E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular"). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Monica deverá estar ganhando o seu prêmio Nobel. Outra prova da parcialidade do autor está em ("porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação"). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Monica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.

O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior. Bem típico de algum recalque homossexual do autor, talvez magoado com a natureza masculina. É sabido que em todas culturas e povos existentes, o homem sempre oprimiu amulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra.

Por quê? Ora, porque tanto homens, mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até... Renato!

Adolar Gangorra tem 71 anos, é editor do periódico humorístico Os Reis da Gambiarra e não perde um show sequer dos The Fevers

Blog EntryMar 17, '08 11:09 PM
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escrevendo

e as pessoas que gritavam na orla da praia queriam vinganca





e eu gritava por fadiga,





e na sala de visitas os anõezinhos gritavam por televisão





a branca de neve não usa colgate





e não grita de felicidade como dentro das maçãs





como fazia antes de se tornar princesa





ela era veneno...e calculava tudo





e os outros pensavam que ela não blefava





pois era tão menina e ninguém calcularia a dosagem de aleluia





que residia na sua ansiedade





a neve caia em meu coração quando aqueles anõezinhos ferozes





relinchavam lorotas a beira-mar se afogando de vez em quando,só para puxar o saco da Branca





gente...que onda que eu tive de segurar!!!!!





as mentiras da aleluia no seu vão untado de alivio ansioso não podem nos salvar





desse puxassaquismo esotérico





e a gritaria recomecava agora na NASA!





acharam mais um buraco negro!!!





negro como a neve!!!





um complô universal para a angústia conquistar a invenção das religiões!!!





oh , antimatéria que nos espelha nas entranhas do mundo!!!





a música das esferas nos esculacha com sua beleza





a hóstia é uma coisa tão sexual!!!





os anões estão malhando pra caralho!!!





estão fortíssimos agora e...se atiram para os pinos de boliche!!!!





tudo bem,tudo bem...eles ganham a vida assim...eles são uns condenados pelas suas artimanhas





tagarelar é uma forma intensa de meditação!!!!! as músicas das esferas uivam de dor e eu sozinho rechaço todas as oportunidades de continuar tendo um raciocínio linear ; achando graça do estéreo da música das esferas





minhas mensagens vêm como uma emboscada, portanto, não tome cuidado algum!!!





Você vai se foder de qualquer jeito,ah,ah,ah!!!!





e o mais engraçado é que eu tambem!!! eh ,eh,eh!!!!





mais não nos desesperemos....nós vamos chegar lá ,afinal de contas,a divindade é uma exigência daqueles afim de pai.

















e assim nós nos tornaremos Aquele a quem tanto procuramos!





nós os anõezinhos seremos Um so na forma de Branca de Neve enveneneda !!





nós seremos a maçã da gravidade que nunca irá cair!!! a maçã da gravidade Zero!!!!





deixaremos de puxar o saco Dela para que, como ela ,reinventemos o universo com mais bôjo





com mais vermelhidão!!! .....e assim as nossas feridas abertas se tranformarão em galáxias alegres a cantar





a música das esferas jamais balbuciará novamente....sera o suave torpor dos intestinos do céu!!





as estrelas estarão em delirio na praia da borda dos mundos e todos os anões(fortissimos) entrarão nela para





fazer uma equipe de water pólo(eles só pensam em esporte)mas a Branca não os deixará em paz





Ela sempre quis que todos se tranformassem num(ou numa) só.





essa coisa compulssiva de ficar malhando pra CARALHO é apenas mais um influxo de compressão universal,





uma espécie de sistema de compressão cósmica que acarretará grandes falcatruas da nossa espécie para transcodificar a Palavra e o Verbo e assim poder já nascer divindade ,fazer a franquia e azucrinar aqueles cagões retardatários que vivem acreditando em nós, eh,eh





só que eles nunca saberão que eu ,voce e todos aqueles anões sacanas somos ,à partir de agora,a gloriosa Branca de Neve





e eles nos imaginam, como um velho patriarca hebreu...





mas isso é porque viram muita televisão e acreditam em tudo que lhes impingem goela abaixo...graças a deus...





mas uma vontade de se multiplicar(ou se estilhaçar,tanto faz)provoca uma tensão dionisíaca nos anões e eles começam a copular freneticamnte em torno da orla da praia ...eles estão se lambendo ritualisticamente...





alguns,devido a excitação sexual,acabam por se afogar e ,imediatamente se transformam em planondinhas...





os sobreviventes eufóricos comecam a pegar jacaré com os anõezinhos afogados





e a Branca fica na praia tocando uma siririca ....ela se excita moinnnnnnnto e provoca com suas secreções vaginais uma contramare que patrocina uma pororoca sem precedentes esmagando todos os anões em seu ventre....





agora eles parecem uns mariscos encrustados na barriga de Branca....rola uma gosma estranhona que escorre entre a as pernas da boneca





e esse suco de anão esmagado é derramado no mar formando um sopão...





agora Branca coloca o sopão numa concha e bebe todos os anões transcodificados....





esse caldo de anão deixa Branca em estado de transe....ela está muito cheirosa e comeca a delirar...





esse seu delirio é tudo o que vivemos hoje,agora e sempre .Nós somos o delirio eterno da Branca de Neve





tudo que vivemos ou imaginamos é subproduto do efeito dessa sopa....





o universo que "existe" é apenas um anseio em meio ao delirio daquela mulher,que somos nós!!!





e assim,nesta imensa precariedade cósmica,pensamos que existimos,numa golada de sopa de anão psicodélico!!!!!

 

 Lobão (12/12/2004)































































"QUERO ME LIVRAR DESSES FANTASMAS"
Entrevista: Marcelo Mirisola, escritor

 
Joana a contragosto, romance de Marcelo Mirisola. Lançamento da Editora Record 187 páginas, R$ 27,90

Cultura - Já é notório seu talento para o insulto, mas agora descobre-se seu talento para o elogio do amor?
Marcelo Mirisola - Fabrício, meu caro. Tenho talento para escrever (o que não é pouco, concorda?). Outro dia me surpreendi elogiando a invasão americana no Iraque. O elogio era tão bem fundamentado que até eu me convenci. Isso - admito - é um perigo, uma irresponsabilidade. Mas no final das contas o que vale é a diversão de poder transformar um bom argumento em ficção. Às vezes - infelizmente - eu não me divirto tanto. E é aí que a coisa pega. Em primeiro lugar porque o estopim já foi detonado (falo da febre de escrever...) e, depois, porque tenho que manter a situação sob controle. Isto é, tenho que arrumar um bom pretexto para me abandonar. Para, enfim, não acreditar 100% naquilo em que eu mesmo engendrei. O nome disso é ficção. Não é nada fácil, dá um trabalhão danado e pode cansar mais do que uma entrevista. O pior de tudo é que sou pessimamente remunerado.

Cultura - Joana a contragosto não é contaminado, como nos livros anteriores, de referências a programas de televisão e de música da década de 70 e 80. É seu livro mais ficcional nesse sentido de se afastar da indústria cultural?
Mirisola - O que você chama de "indústria cultural" nada mais é do que um dado. Uma ferramenta de trabalho a serviço de um enredo. Em O azul do filho morto havia a necessidade da televisão ligada, do programa do Bolinha e de outros eletrodomésticos e mandiopans afins. Vale notar que toda essa parafernália apenas ajuda na condução do livro, de maneira alguma atrapalha o andamento da história e jamais pode ser confundida com algo datado. A mesma coisa vale para os palavrões. Estão ali cumprindo uma função. Aliás, não existem palavrões nos meus livros. Existem - repito - necessidades. Mas como eu dizia, queria ver se Marcel Proust tivesse nascido lá em casa, em 1966... cada um que administre a madeleine que lhe cabe. Bem, no caso de Joana, as necessidades eram outras. A discussão era mais eloqüente. Tinha que lidar com o confronto entre vida e arte. Tinha que falar de amor e não podia ser derramado... ao mesmo tempo tinha que abaixar a guarda e dar um xeque-mate no meu narrador. Meu estilo estava em risco, e ainda por cima Joana era mais real na minha ficção do que jamais poderia ter sido em qualquer situação vivida de fato. Eu era o médico e o paciente. Emagreci 15 quilos e terminei o romance em exatos nove meses. Se você acha pouco, Fabrício, lhe digo que teve muito mais. O problema é que quero me livrar desses fantasmas, e não consigo. O sobrenatural ainda está me pedindo explicações... e eu não sei como lidar, não sei o que dizer. Estou cansado, meu amigo. Na verdade, gostaria que ela, Joana, fosse mesmo uma mulher de verdade (de fé, uma companhia a toda prova) e que estivesse aqui ao meu lado para o que der e vier. Mas não tenho nada, nada, nada.

Cultura - Como o personagem, você já recebeu um pé-na-bunda de alguma namorada?
Mirisola - Quem não levou? Mas isso não é importante. Tanto não é importante que antes havia levado e depois levei outros mais doloridos que não viraram livros. O livro é resultado de uma escolha. E ninguém é louco de deliberadamente escolher se arrebentar para escrever um livro. A gente simplesmente se arrebenta - e aí não podemos falar em "protagonistas", entende?

Cultura - Sua obra anterior, Notas da arrebentação, no formato de correspondência, ajudou na elaboração de Joana a contragosto, uma longa, dolorida e terrível carta de amor a uma mulher?
Mirisola - Acho que não. O Notas da arrebentação foi uma oportunidade que eu tive de juntar uns textos que estavam espalhados por aí em jornais, revistas e malfadadas antologias. Eu queria "salvar" principalmente um conto chamado Rio pantográfico. O melhor conto que escrevi até hoje. Esse conto não merecia ser confundido com as políticas do organizador da antologia. Se você quer mesmo saber, vou lhe dizer uma coisa: me senti aliviado por ter tirado esse conto das garras do Nelson de Oliveira. Quando a antologia foi duramente criticada, ele não bancou a idéia. Disse que nós, da tal "Geração 90", éramos continuadores das obras de Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão e Márcia Denser. Disse que procurávamos "a excelência do texto" e mijou feio para trás. Eu me senti profundamente ofendido. Não sou um executivo de letras. Não estou aqui para continuar a obra de ninguém e não preciso dar tapinhas nas costas de ninguém para ver meu belo rostinho publicado nos jornais. Também não escrevo de graça em lugar nenhum. Enfim, entrei de gaiato nessa barca furada por delicadeza. Quis ser gentil, aceitei o convite e quebrei a cara.

Cultura - Você já disse que os autores que receberam prêmio em detrimento de seus livros deveriam depositar o dinheiro em sua conta. Lembro que tornou público o número de sua conta. Sente-se excluído dos prêmios literários?
Mirisola - Completamente. E não custa nada repetir o número da conta: Itaú, agência 0189, conta corrente 48227-6 . Será que esses escribas não vão se ligar nunca?

Cultura - Quem Marcelo Mirisola gostaria de ser por um dia?
Mirisola - Por uma noite: queria ser o personagem M. M. do Joana a contragosto.

Cultura - É estranho pensar que é o segundo livro que fala de seus filhos mortos, incluindo O azul do filho morto. Em Joana a contragosto, o narrador lamenta que sua transa sem camisinha tenha sido apagada pela pílula do dia seguinte e se vê pai de uma indiazinha de olhos amendoados que não nasceu. Nossa, cria uma nova paternidade: a de fantasmas?
Mirisola - Muito triste isso, hein, Fabrício? Muito bonito também.

Cultura - O personagem contrai o vírus HIV e não culpa a mulher. Vira um detalhe secundário na trama. O amor torna a vida inverossímil?
Mirisola - O amor é mais letal que a vida. Não promete apenas a morte. É muito mais do que isso. A Joana do livro acabou com a inverosimilhança do narrador. Também levou todos os anticorpos, os paradoxos, a alma, o cérebro dele, não deixou nada. Sobraram os fantasmas. Uma vida que se exauriu em função de uma arte estéril, maldita.

Cultura - Pela condução das suas obras na primeira pessoa, muitos leitores confundem a opinião de seus personagens com a do escritor. Mirisola é tão machista assim, tão trash, tão inconformado e cínico? O que há de diferente entre os dois?
Mirisola - As respostas acima, por exemplo.

Cultura - Percebo que seu alter ego encontrou uma mulher à altura da maldade dele. "Ela me devolveu a mim mesmo." Houve um processo de conscientização da figura masculina a partir do narciso feminino?
Mirisola - Houve um processo de destruição plena da figura masculina. Que curiosamente também destrói a feminina. Terra arrasada.

Cultura - Qual foi o erro do seu personagem para não conquistar Joana? O jogo limpo?
Mirisola - Foi ter escrito o livro (e aqui faço questão de misturar as coisas).

Cultura - Nunca a poesia entrou com essa intensidade na veia de sua narrativa, misturando ternura e naufrágio. Se Notas da arrebentação tinha o subtítulo Menos poesia, Joana poderia ter o de Mais poesia. Você mostra finalmente uma feição lírica?
Mirisola - Não tinha outra saída, Fabrício. O lirismo era a única saída para o meu narrador. Talvez a última.

Cultura - Seus livros seguem um projeto ou são feitos por uma escrita inconsciente, visceral, em que nem o escritor conhece o final, tipo "cada vez que procuro entender, a coisa piora"?
Mirisola - Pelo contrário. Mantenho as rédeas curtas. Sei exatamente o que pretendo e aonde quero chegar. Não desejo fazer concorrência a Zibia Gasparetto. Tenho um estilo a preservar, afinal de contas.

Cultura - Você já realizou parcerias com Caco Galhardo (O banquete). É possível trabalhar em conjunto com outro autor sem perder a individualidade do estilo?
Mirisola - Perfeitamente, e além disso dá para se divertir um bocado. O Caco Galhardo é um sujeito sintonizado com aquilo que eu chamo de "inhaca" da classe média. Ele me mandou umas 300 gostosas da sua coleção de Pin Ups. Nunca tive tantas mulheres em casa. Escrevia uma por dia, e o resultado foi muito bom. Em 30 dias tinha o livro pronto. Tenho notícias de uns malucos por aí que se masturbam com o livro. Espero que as mulheres desenhadas pelo Caco sejam as inspiradoras. Meu texto - até onde eu sei - é às vezes esquisito, às vezes melancólico, às vezes demente. Às vezes lírico. Se isso dá tesão em alguém, eu só posso achar muito estranho, e lamentar.

---

(Mirisola reinicia, hoje, sua publicação de crônicas na internet: http://congressoemfoco.ig.com.br)



Noite negra e fria pelas sequóias

carros parados lá fora na sombra

atrás do portão, estrelas tênues sobre

o barranco, uma fogueira ardendo perto da

varanda e almas cansadas curvadas

em jaquetas de couro negro. Na imensa

casa de madeira, um candelabro amarelo

às 3 da manhã o estouro dos alto-falantes

hi-fi Rolling Stones Ray Charles Beatles

Jumping Joe Jackson e vinte jovens

dançando na vibração pelo chão da sala,

erva rolando no banheiro, garotas de malhas

vermelhas, um homem sarado e suave

suando e dançando por horas, latas de cerveja

em pilhas no quintal, a figura de um enforcado

balançando num galho alto sobre o riacho,

crianças dormindo sossegadas nos beliches.

E 4 carros de polícia estacionados no portão

recém-pintado, luzes vermelhas revistam as folhas.



Dezembro de 1965


First Party At Ken Kesey's With Hell's Angels


Cool black night thru redwoods

cars parked outside in shade

behind the gate, stars dim above

the ravine, a fire burning by the side

porch and a few tired souls hunched over

in black leather jackets. In the huge

wooden house, a yellow chandelier

at 3 A.M. the blast of loudspeakers

hi-fi Rolling Stones Ray Charles Beatles

Jumping Joe Jackson and twenty youths

dancing to the vibration thru the floor,

a little weed in the bathroom, girls in scarlet

tights, one muscular smooth skinned man

sweating dancing for hours, beer cans

bent littering the yard, a hanged man

sculpture dangling from a high creek branch,

children sleeping softly in their bedroom bunks.

And 4 police cars parked outside the painted

gate, red lights revolving in the leaves.


December 1965


ALLEN GINSBERG
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes (fonte:http://estudiorealidade.blogspot.com/)

Blog EntrySep 21, '07 1:28 PM
for everyone
19/9/2007 11:46:00
Ebulições Pivianas


Por Paula Dume e Renata D’Elia






No mundo da poesia de Roberto Piva, xamãs celebram o extraterreno todos os dias, os ciclos da natureza são respeitados pelos seres da apodrecida capital poluestana e o planeta acusa que estar em trânsito é um bom sinal para os tempos. O poeta, que completa 70 anos em setembro, expurga juízos e assassinos da realidade de modo controverso ao descosturar pregas móveis demais para uma sociedade imóvel com o agora. “O Brasil que eu lido não é esse. Eu não lido com o país inteiro, eu lido com grupos, com pessoas, com indivíduos", aponta.

 

Em 1961, participou da "Antologia dos Novíssimos", de Massao Ohno, na qual vários poetas brasileiros, até então iniciantes, foram lançados, como Álvaro Alves de Faria. Hoje, Piva é um dos três únicos poetas brasileiros que ocupam linhas no "Dicionário Geral do Surrealismo", publicado na França. Entre "Paranóia" (1963) e "Ciclones" (1997), tem outro livros individuais lançados, além de participações em antologias. Piva está prestes a lançar seu terceiro volume de obras reunidas pela Editora Globo, "Estranhos Sinais de Saturno".

 

Nas palavras de Paulo Franchetti, professor titular no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os escritos do poeta se firmam pela ruptura entre os contrários: “Perto dessa obra, que permaneceu de fato marginal (senão maldita até muito recentemente), os ‘poetas marginais’, seus contemporâneos de antologia, acabam mesmo por parecer garotos instalados na ‘perspectiva estável de uma sala de jantar de classe média’”.

 

Na sala do seu apartamento no bairro de Santa Cecília, Piva conversou sobre seus gostos pela poética da transgressão, seus desgostos pela política e seus contragostos pelos paradoxos da urbanidade.

 

 

Você mora no centro de São Paulo há muito tempo. Você considera essa cidade de hoje mais sombria ou mais dócil que a de ontem?

Mais horrorosa. Eu só moro aqui porque não tenho dinheiro para comprar um sítio, senão eu já estaria fora.

 

Por que horrorosa? O que mudou tanto para você achá-la horrorosa?

Não mudou nada, é por isso que é horrorosa. As pessoas estão mais criminalóides. É uma sociedade de massa, tem criminalidade de massa. Toda metrópole é uma necrópole, um vasto cemitério. O homem é o único animal que armazena seus mortos. Por medo de pegar bicho-de-pé fica amontoado nas cidades, se devorando.

 

As pessoas são mortas-vivas?

Depende das pessoas.

 

Você afirma não ser um poeta da cidade, mas um poeta na cidade. Esse poeta percorre os lugares pelos quais passava na década de 60 e pelos lugares que passa hoje e percebe diferenças? Quais?

Perdeu a magia, a dimensão lúdica. Hoje é uma cidade devastada, com uma população desenraizada que veio do campo para a cidade completamente sem visão do urbano, sem visão de nada.

Antigamente o centro refletia a cidade. Você acredita que hoje isso mudou ou a cidade nunca refletiu nenhum espaço dentro dela própria?

Eu escrevi o livro “Paranóia” que tem uma visão mágica da cidade, como uma grande carniça apodrecendo. Eu vivo aqui por mera falta de opção. Vocês viram no meu livro que saiu pela [Editora] Globo, no primeiro volume [de reedições da obra completa], uma foto minha de 14 anos na fazenda dos meus pais. Aquele tempo é o tempo do sonho, é o tempo dos anos dourados que não voltam mais.

 

Você nasceu no interior?

Eu nasci em São Paulo, na rua Joaquim Eugênio de Lima, na Pró-Matre. Eu fui para o interior, porque meus pais tinham fazenda lá, eram fazendeiros. Eles moravam perto de Rio Claro, em Analândia.

 

Como e quando foi seu primeiro contato com o xamanismo?

Foi na fazenda do meu pai, com um mestiço de índio e de negro que me iniciou na piromancia. Eu tinha 12 anos. Ele mandava eu olhar para o fogo e descrever tudo que via, depois ele interpretava. Era empregado da fazenda e tinha essa dimensão cósmica. Era um poeta intuitivo, um xamã. Depois, eu fui iniciado em mil outras orientações.

 

Jim Morrison afirmava ter sido capturado por um xamã indígena quando criança. Você também foi capturado pelo xamanismo?

Os primeiros poetas eram todos xamãs, e vem daí essa tradição de ligar poesia e inspiração com as técnicas arcaicas do êxtase. Não tem regras. O importante do xamanismo é que se trata de uma religião de poesia, não de teologia. Dante [Alighieri], por exemplo: todo o xamanismo está lá, os três reinos, a ligação mágica que ele tem com o número nove. Ele passou nove dias com febre e durante esses dias teve a intuição de “A Divina Comédia”. Depois, foi exilado de Florença, porque era contra o papa ter poder temporal. Ele era um nômade. Foi hóspede de vários aristocratas que admiravam o trabalho e a cultura dele. Escrevia enquanto estava em trânsito, nos passeios que fazia em torno do castelo desses senhores feudais.

 

Para Jean-Luc Godard, a felicidade não tem história. A poesia tem?

A poesia tem mito, mito do eterno retorno. Ela vive em função das estações, dos ciclos da natureza.

 

O que te motiva ou motivou nessa lida poética: alucinação ou insatisfação?

Os dois. Aquilo que Henry Michaux disse: “na minha absoluta incapacidade de conformar-me”.

 

Na sua carreira, você criou sob o efeito de drogas alucinógenas e psicodélicas. É possível fazer poesia em sã consciência?

Claro, a poesia pode ser feita em qualquer estado de espírito. Não precisa ser necessariamente com alucinógeno. A poesia em si é um delírio. A própria poética é um ato de transgressão na medida em que a poesia trata de coisas invisíveis do planeta, lida com forças invisíveis.

 

A sua poesia atinge um estado de fervura, é instintiva e visceral. No entanto, durante todo esse tempo prevaleceu na literatura mundial, um zelo  politicamente correto, principalmente por essa literatura que ganha prêmios. Você sente que atira pérolas para os porcos?

Atiro pérolas para aqueles leitores que me lêem, que gostam de mim.

 

Para os poucos, não para os porcos.

Para os poucos. O próprio Octávio Paz diz que “a poesia é uma arte minoritária”.

 

O que você pensa da FLIP e desses escritores que participam dos debates?

O que é FLIP?

 

Festa Literária Internacional de Paraty.

Deve ser um acontecimento turístico.

 

Eles convidam escritores de renome internacional , como Mia Couto, Amós Oz, Lillian Ross, J.M. Coetzee.

É ligado à mídia e isso não me interessa.

 

Você não participaria?

Depende. Se pagarem bem, eu vou. São coisas amadorísticas e isso não me interessa.

 

Você tem lido novos autores, principalmente os paulistas que, de certa forma, se consideram “marginais”?

Eu não conheço esses novos escritores marginais, não tive oportunidade de conhecer.

 

No poema “O Andrógino Antropocósmico”, você diz que “o leitor quer dar & tem medo”. O que a poesia quer revelar e tem medo?

Quer revelar o lado escuro da Lua [rs]. Pink Floyd ...

 

Sobre as críticas que tenham atingido a sua literatura e a de outros, o que é pior na crítica literária: a tentativa de ignorar o sexo, a classificação de tudo que é libertino como sujo ou a busca pela racionalização do desejo?

Tudo isso é muito ruim, porque não tem que se colocar problemas de comportamento, tem que colocar problema de cultura. É um atraso de todo um país que vai atrás disso. Não é problema de comportamento, é problema de cultura.

 

Você lê crítica literária sobre você ou sobre outros escritores?

Eu leio por curiosidade quando sai.

 

Mas isso te afeta? Você fica bravo?

Não fico bravo. Não tenho sido malhado.

 

Você tem sido elogiado, de forma acadêmica, inclusive.

Eles descobriram, né?

 

Quem você lê?

Nossa, tudo isso aí [aponta para pilhas de livros que estão em sua sala]. Tem mais um armário cheio, e dentro do quarto tem mais dois.

 

Aqui tem de Dante a [Alejandro] Jodorowsky.

Exatamente.

 

O que você está lendo agora?

Estou lendo “Psicomagia”, do Jodorowsky.

 

Podemos dizer que os aquários da imaginação brasileira se racharam?

Sim, mas o Brasil que eu lido não é esse. Eu não lido com o país inteiro, eu lido com grupos, com pessoas, com indivíduos.

Piva, o que é brasilidade?

Não sei. Vinícius [de Moraes] dizia “pátria minha é o grande rio secular que bebe nuvem, come terra e urina mar”. Talvez seja isso.

 

Em “O século XXI me dará razão”, manifesto escrito em 1984, você critica  “seu sindicato policial do crime, seus gângsteres ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês de direita, seus cérebros de água choca”. Como se sobrevive num mundo em que essas pessoas e instituições mandam?

Sobrevive com vaselina no corpo. Você tem que ser escorregadio.

 

E ninguém te pega?

Eles pensam que pegam, mas não pegam.

 

Quem é que está ouvindo os seus urros pelos “poliedros da justiça”?

Tem vários tipos de pessoas, de todas as classes sociais. Tem muita gente que compartilha com essa visão de mundo ainda.

 

Você diz que tem contato com alguns grupos de pessoas que não compartilham essa visão de mundo generalista. Acreditamos que você tenha contato com jovens, interessados em literatura. O que lhe provoca esta juventude de agora? Qual tipo de sentimento, de opinião, de impressão?

Você está falando das pessoas que gostam da minha poesia?

 

Sim, com as quais você dialoga.

Eu gosto muito de falar com as pessoas.

 

Há semelhanças com a sua geração ou são coisas totalmente diferentes?

Tem coisas diferentes, mas tem pontos de ligação muito grandes.

 

O comportamento desregrado é uma herança? É visível ou é um estilo wannabe: “eu quero ser desregrado, anarquista e livre”?

[Pier Paolo] Pasolini dizia que tem três tipos de adolescentes, de pessoas jovens, que são as mais sacrificadas na sociedade: os jovens homossexuais, os aristocratas do norte da Itália e os cultos. De todos, os mais solitários são os cultos.

 

Esses são os que você tem visto com mais freqüência?

Eu tenho visto de tudo. Não fico só nesse tipo.

 

E os demais? Há uma bestialidade maior no restante?

Pessoas medíocres eu evito, porque burrice pega. Você vê que o país está atravessando um período de burrice enorme com esses ditadores de esquerda no poder.

 

O que lhe incomoda mais: a pressão acadêmica e intelectual, que cobra do escritor uma postura nacionalista, ou a especulação sobre sua posição política?

Engraçado que não me perguntam da minha posição política, porque sabem que eu sou monarquista. Desde 1958, eu sou monarquista. Percebi que a grande maioria do povo brasileiro é aristocrata, mas caíram nessa conversa de Lula, de PT, de “uísquerda”, da esquerda do uísque. O cerebrozinho deles é reduzido, só cabe aquela meia dúzia de chavões para poder analisar a realidade. E a realidade é oscilatória, não é linear.

 

O que é pior: PT ou PSDB?

PT é um lixo. Nunca votei no PT. Voto em qualquer partido, menos no PT. O PT é aliado do governo criminoso de Cuba. Lula é um produto da “uísquerda” da USP e de Ipanema. É um governo de pessoas corruptas e medíocres. É preciso varrer essa gente do poder.

 

É pseudo-comunismo?

PT é o fascismo de esquerda. É aquilo que Pasolini chamava de “o fascismo vermelho”, termo criado pelo Wilhelm Reich.

 

Cite um “estrangeiro na legião”.

Nossa, tem tantos. [Antonin] Artaud, [Henry] Michaux, [Dino] Campana e os poetas beats americanos.

 

Você já tinha sido publicado na “Antologia dos Novíssimos” do Massao Ohno, quando entrou em contato com a poesia de Allen Ginsberg?

Eu não tinha contato nenhum com a [poesia] beatnik quando comecei a escrever, tanto que é uma poesia completamente diferente da “Antologia dos Novíssimos”.

 

Você leu logo depois?

Li logo depois os beats, em 60, 61.

 

Isso mudou sua vida ou você já estava contente com Dante, com essa outra atmosfera?

O que me mudou a vida foi a vida. As circunstâncias, a visão não-linear do mundo, essa coisa toda.

 

Entrevistamos Massao Ohno [editor de Piva durante muitos anos] recentemente. Ele declarou que nem ele nem você, nos anos 60 e 70, tiveram qualquer problema com a ditadura, já que ele era filho de militar e tinha costas quentes. Você teve algum problema em tempos de ditadura, logo a partir do primeiro livro, “Paranóia”?

O perigo em qualquer ditadura é o guarda da esquina, não é o general. A polícia toma o freio nos dentes e fica extremamente arbitrária. Muitas vezes, bêbado na rua, de madrugada, você era preso para passar o fim de semana. Chegava na cadeia, te roubavam tudo. Os carcereiros faziam um rapa e te soltavam.

 

Você passou por isso alguma vez?

Duas ou três vezes.

 

O escritor Reinaldo Arenas foi severamente reprimido pela ditadura de Fidel Castro, em boa parte devido à homossexualidade. Ele dizia que a homossexualidade lhe garantia inspiração e libertação. Isto está no livro “Antes que anoiteça”, a autobiografia dele. O homossexualismo influi no seu instinto libertário, na sua escrita libertária?

Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Octávio Paz dizia que “a poesia é subversão do corpo”. Então, seja no corpo que for – homossexual, heterossexual, bissexual – ela estabelece a sua própria corrosão. Essa frase dele já é uma crítica à sociedade organizada. Nos países totalitários, a homossexualidade representa uma ameaça para a pequena burguesia do poder, vide ex-URSS e Cuba que até hoje encarceram e matam homossexuais.

 

Mala na Mão & Asas Pretas para quem?

É uma forma de dizer que você está em trânsito no planeta.

 

Você se considera em trânsito, sempre?

Estou em trânsito e quando morrer não voltarei jamais.

 

Sobre o período em que você dava aulas, não era incômodo partilhar um conhecimento tão formal e quadrado?

Aula não é esse tabu. Você fala sobre o que quiser.

 

Você dava aula de poesia?

De poesia. E dava Gilberto Freire para eles lerem. Tudo aquilo que a esquerda não dava.

 

Você foi produtor de shows de rock. Era o rock para você uma expressão contrária àquela obrigatoriedade de se fazer MPB, de se fazer canção de protesto, engajada?

Nunca me liguei nessa canção de protesto, tudo isso é um lixo. Eu promovia show de rock para ganhar dinheiro, para sobreviver, e porque eu gostava. Não dava muito dinheiro, mas eu gostava. Foi um período muito criativo, conheci muitas pessoas interessantes, mas cabeça de roqueiro, como de bofe, é cabeça de congo belga, muito limitada.

 

Foi curta a carreira?

Eu produzi shows durante dois anos.

 

Você pintou algum desses quadros que estão aqui? [em referência aos quadros que cobrem as paredes da sala do seu apartamento]

Não.

 

Você tem outra vocação artística?

Não tenho.

 

Essas obras de arte lhe foram presenteadas?

Sim, tem Rubem Valentim, Rodrigo de Haro, artista plástico absolutamente genial, Wesley Duke Lee com dedicatória, tem vários. Eu troco de vez em quando, coloco pôsteres dos jazzmen.

 

E tem um Milles Davis e um John Coltrane.

Sim, fotografia e pôster.  

 

Nenhum Thelonious Monk?

Não, não achei.

 

Estamos vendo aqui na estante uma embalagem do “Roma”, seriado produzido pela HBO...

Que eu ganhei do [João Silvério] Trevisan. Foi presente de aniversário antecipado que ele me deu.

 

Você assistiu “Roma”? O que você acha desse retrato que os produtores da HBO estão fazendo?

Achei brilhante. Pela pesquisa que eles fizeram, é brilhante.

 

Falando em Roma, seu filme favorito é “Satyricon”, do [Federico] Fellini ...

E um dos livros que eu também mais gosto. Do Petrônio. Vocês gostam?

 

De ambos, Petrônio e Fellini.

É uma beleza esse filme. Está absolutamente de acordo com o livro. É a descrição que o Petrônio faz da nova classe, que era a dos escravos libertos, com os quais Nero governou. Por isso que ele era mal-visto, apesar de ser um aristocrata. A classe senatorial nunca perdoou Nero por ter governado com os escravos libertos.

 

A editora Globo já lançou dois volumes de suas obras reunidas – “Um Estrangeiro na Legião” (2005) e “Mala na Mão & Asas Pretas” (2006). Vem aí o terceiro, “Estranhos Sinais de Saturno”. Fale um pouco sobre o último volume, quando vai ser lançado e quais são suas expectativas.

Provavelmente vai ser lançado no dia do meu aniversário. Eu faço 70 anos no dia 25 de setembro. Não está certo ainda porque tem muita coisa inédita que está aqui, e eu preciso passar para eles. Tem um livro já publicado que vai sair nesse último volume também, o “Ciclones”.

 

De todos os seus livros, qual o seu preferido?

Gosto do “Ciclones”.

 

Que por sinal é o mais recente. Por que?

Porque as minhas mais queridas vivências estão lá.

 

Que são as vivências mais recentes também?

Não, não necessariamente.

 

Piva, o que lhe faz sorrir e o que lhe faz chorar?

De tudo é possível você rir e chorar.

 

Depende do quê?

Aquilo do [William] Blake: “o excesso de alegria chora, o excesso de tristeza ri”.

 

De que material é feito Roberto Piva?

[silêncio] Material extraterrestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bibliografia:

 

FRANCHETTI, Paulo. "Pós tudo: A Poesia Brasileira depois de João Cabral". In: Estudos de Literatura Brasileira e Portuguesa. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007. 

 

 

 

 

 

Paula Dume é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, integrante da equipe do veículo impresso e independente Catarse, rascunha linhas nas revistas eletrônicas Speculum e Scream & Yell. Para ela, cinema não é escuro e a tela importa. Chove de vez em quando em http://descompassada.blogspot.com. E-mail: pauladume@yahoo.com.br.

 

Renata D´Elia é paulistana, tem vinte e poucos anos, e escreve sobre música, cinema e literatura para veículos da internet. Também trabalha como tradutora. Ela pode ser encontrada falando pelos cotovelos nos calabouços e arredores da Faculdade Cásper Líbero.
Blog: http://deliaboard.blogspot.com. E-mail: deliabord@yahoo.com.br.


Blog EntryJun 5, '07 6:37 PM
for everyone

Entrevista com
Glauco Mattoso

Glauco Mattoso é poeta, escritor e formado em biblioteconomia e letras. Além disso, é o mais ilustre pedólatra brasileiro. Quem lia Chiclete com Banana deve se lembrar de seus textos e dos de um tal Pedro, o Podre, no encarte JAM. Pedro, alter ego de Glauco (não confundir com o cartunista Glauco de Los Três Amigos) escrevia artigos escatológicos e anarquistas, apresentando bandas punks e o mundo underground paulista. Antes disso, nos anos setenta, Glauco já divulgava por aí sua tara por pés em prosa e verso no Jornal Dobrabil, publicação escrita e diagramada por ele numa máquina de escrever. De uns anos pra cá, cego devido a um glaucoma (glaucomatoso, seu pesudônimo, é como se chama quem sofre de glaucoma) Glauco diz que o desejo por pés só tem aumentado. Em entrevista à Trip, o papa da pedolatria explica melhor essa fixação por pés, botas, calçados e afins.

CLIQUE AQUI PARA OUVIR
O ÁUDIO DA ENTREVISTA

Trip - Os pés são a parte do corpo que mais te atrai numa pessoa?
Glauco Mattoso - É, exatamente, sempre foram. Agora mais ainda porque depois de cego a gente se orienta pelo tato.

Trip - Desde que você era pequeno já tinha essa predileção?
Glauco - Ah, sim. Eu tive uma experiência quando criança, eu era muito isolado, muito quieto, muito estudioso e os meninos mais velhos abusavam de mim. A tal história do CDF que vira uma espécie de mascote na mão dos outros. Eles brincavam comigo me obrigando a beijar pé, essas coisas. Aí eu comecei a ficar com fixação.

Trip - Tem uma história sobre um trote no Mackenzie...
Glauco - Pois é. Bem depois, quando eu já era universitário eu presenciei uma cena de trote no Mackenzie onde os calouros eram obrigados a engraxar o sapato dos veteranos, mas com a língua. Então eu fiz uma coisa que precedeu a minha carreira teatral. Depois disso eu acabei fazendo teatro amador. Eu me disfarcei de calouro - eu era estudante de biblioteconomia, que era ao lado do Mackenzie - e apareci lá, no meio dos outros calouros, pra ser humilhado da mesma forma e fui submetido ao mesmo tipo de trote. Eles não chegaram a perceber. Só revelei isso depois pra outras pessoas.

Trip - O tesão por pés está ligado ao masoquismo?
Glauco - Tá muito ligado. O tesão por pés é uma coisa muito forte, muito arraigada. Não é masculino nem feminino, existe nos dois sexos. O pé tem tanto uma simbologia fálica, no caso do pé masculino, como uma simbologia de dominação e submisão, porque ele estando ao nível do chão, ele pisando, ele humilha. Então a pessoa que fica embaixo está sendo humilhada, e isso vale também pro homem em relação a mulher. Por isso que o sapato feminino quando tem salto muito alto, bico fino, formatos assim muito pontiagudos, também excita o homem, no caso do fetichista masculino.

Trip - O que você acha que há de melhor nas artes para o público pedólatra?
Glauco - Existem vários filmes que contém cenas de pedolatria. Mas até agora não vi um que trate exclusivamente disso. O que existe são fimes que trazem cenas de pedolatria. A minha preferência é por uma cena do filme Laranja Mecânica, do Kubrick. Esse filme tem uma cena de pedolatria em que um cara, o Alex, é obrigado a lamber o sapato do outro. Na literatura sim, existe toda uma tradição de pedolatria que vem desde a história da Cinderela, no caso do pedólatra que gosta do pé feminino. No Brasil nós temos um romance do José de Alencar, chamado A pata da gazela, que traz uma personagem que calça 29, a tal gazela.

Trip - Que tipo de pé mais te interessa?
Glauco -O pé masculino que é considerado bonito é o pé escultural, arqueado e de formas bastante arredondadas. É o pé da estatuária greco-romana e que também aparece no Renascimento. Agora, no meu caso, como eu sou uma cara anti-estético, um anti-esteta, eu prefiro sempre aquilo que foge à regra da beleza comum. Então no meu caso a preferência é pelo pé chato, grande e até mal-cheiroso.

Trip - Você conhecendo uma pessoa (pelo menos antes, quando você via), você consegue imaginar o pé dela?
Glauco
- Às vezes. Existe uma dica pra você imaginar o pé da pessoa: é só observar a mão. Através do formato da mão, se os dedos são mais arredondados, mais alongados, se a mão é mais gorda o pé também acompanha esse desenho. E é claro, em relação a estatura do corpo você também tem uma idéia. Apesar de que no Brasil isso não vale muito. Se você tomar por base os jogadores de futebol, por exemplo: um jogador alto, como era o Sócrates, calçava um número muito pequeno, é uma desproporção. Já no caso do americano, do europeu, é uma coisa mais lógica: se o cara é grandão ele vai ter o pé grandão mesmo.

Trip - Uma pessoa feia com pés muito interessantes se torna atraente para você?
Glauco - Ah, com certeza! Eu nunca fui de reparar em fisionomia, em rosto, em corpo, se é alto, se é baixo, se é gordo ou se é magro. O que realmente me atrai é se o pé é um pouco maior em relação ao corpo. Se ele for desproporcionalmente grande em relação ao corpo melhor. Um jogador de basquete que tenha um pezão não me atrai, porque o pé tá muito harmônico em relação ao corpo. Agora, se o cara tiver a minha altura, mas calçar dois ou três números a mais que eu, aí já automaticamente me atrai.

Trip - Um pedólatra reconhece outro? Você identifica num ambiente alguém que tenha o mesmo interesse que você?
Glauco - Não. A menos se a pessoa tiver uma intuição muito aguçada. É praticamente impossível descobrir se um cara é pedólatra. Aliás isso vale para os fetichistas de maneira geral. Os fetichistas (o pedólatra em especial) são pessoas muito tímidas. Em geral eles não se revelam, ele não confessam a preferência porque têm vergonha de ser ridicularizados, das pessoas não acreditarem, não levarem a sério. Eles se consideram muito diferentes. Isso é o que eu pude constatar. Então eles acabam procurando outros pedólatras através de anúncios de revistas, de clubes...

Trip - Qual é o melhor lugar para um pedólatra, a praia ou uma loja de sapatos?
Glauco - Depende do pedólatra. Se for um pedólatra ao estilo clássico, aquele que observa apenas a beleza estética eu acho que praia, piscinas e lugares assim são os mais indicados. Agora, se for um cara mais exótico, assim como eu, que também gosta de sapatos, de botas, pessoas calçando botas em geral bem usadas, surradas, aí eu acho que qualquer ambiente urbano é interessante. Um ambiente militar, um esportivo, até executivo às vezes, dependendo da situação.


Blog EntryFeb 26, '07 7:36 PM
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copia e cola

Marcus Vinicius Jacobson

Reportagem

Entrevista realizada no dia 08/12/2004

1) Qual o balanço que você faz desses 45 anos de carreira ?

Kaótico, positivo, otimista e fatal.

Mautner e sua relação com as composições de sua autoria

2) Você é considerado um dos compositores mais gravados em vida. Como se sente em relação a isso ?

Gostaria de dizer que não sei se é verdade isso aí. Mesmo assim, minhas composições, com ou sem parcerias, foram gravadas por muitos e muitas intérpretes de nossa música. Não apenas isto me dá uma enorme felicidade assim como me deu, e dá, e dará o dinheiro para o sustento da minha vida.

3) Você já foi chamado de Mestre por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Como é sua relação com eles ?

A minha relação com eles é de profunda amizade e de um intenso partilhar de idéias, confissões e sentimentos.

4) Um profissional multimídia e gênio das artes. Esses dois conceitos fazem aumentar sua responsabilidade em relação às suas composições ?

A minha responsabilidade sempre foi demasiada pelo motivo de ser eu o filho do holocausto. Eu seria cinza de forno de crematório de campo de concentração nazista se não tivesse nascido no Brasil. Toda a minha obra literária, musical e minha própria vida tem sido determinada por esta missão.

5) Dentre as diversas áreas que você atua, alguma em especial te dá mais prazer? Por que ?

Minha música é a minha literatura cantada. Minhas ocasionais incursões no cinema e na pintura fazem também parte desta mitologia do kaos, e tudo isto se confunde com minha vida. Tudo isto me dá prazer e tudo isto leva a descoberta do outro.

6) Fale pra gente sobre seu mais recente CD.

O mais recente foi o disco meu com o Caetano Veloso intitulado Eu Não Peço Desculpa, uma das maiores felicidades da minha vida, disco este que ganhou o Grammy de 2003 como o melhor disco da MPB.

7) Em falar nisso, tem algum novo trabalho em vista que já está engatilhado ?

Estou aqui na Dig Produções cuidando exatamente deste assunto. Espero que para 2005 eu apresente um novo CD com um sonhado DVD e com músicas novas para o meu querido público e para esta nova geração que tanto tem prestigiado meu trabalho.

O artista junto com Caetano Veloso: Uma parceria vitoriosa !

8) Qual análise que você faz sobre a a música que é produzida atualmente ?

Com a vitória da democracia e plenitude em quase todo o planeta as formas de criatividade mais inusitadas cheias de multi diversidades estão pipocando por aí. A eletrônica com os batuques e as danças frenéticas fazem as pessoas cantar e dançar ao predominante som do Hip-Hop, do Funk e do Rap além das outras tradicionais e até mesmo folclóricas. É um êxtase retumbante.

Mautner dando seu recado final

9) Em algum momento, te incomoda o fato da mídia dar pouco espaço para cantores de qualidade como você, Chico Buarque e muitos outros e divulgar somente músicas descartáveis ?

No livro mais antigo da humanidade, o Upanishad, a primeira frase é: tudo é sofrimento. E logo em seguida lê-se: gostar de tudo que acontece.

10) Deixe um recado final para seu imenso público.

Infinitos beijos e um imenso abraço de carinho e também a notícia de que os estudantes de medicina em Curitiba inauguraram o primeiro clube filosófico do Kaos com autonomia total de decisões e ações. Lembrando ainda que de todas as serpentes da caixa de Pandora, que eram as serpentes da intriga, da maldade, da cobiça, da hipocrisia, da mentira, etc, a última serpente a sair desta caixa, a mais terrível de todas elas era a esperança. E também, como dizia meu pai: do jeito que você fizer meu filho, você estará sempre errado. E só para finalizar: viva a ressurreição a cada instante!!!! Se alguém quiser se comunicar com o profeta do Kaos, o e-mail é jorge@jorgemautner.com.br !


Blog EntryFeb 24, '07 10:56 PM
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Copacabana lua cheia
Fausto Fawcett
Entrevista com Fausto Fawcett

1. Qual o tema de Copacabana lua cheia?

FF: Vários são os temas abordados, mas eu diria que a segunda musa (a primeira é minha companheira de viagem social: Samantha Kelly Morgan) e assunto principal do livro é a globalização. E os ímpetos de promiscuidade social, comunicacional, antropológica, trágica que ela injeta nos nossos corações e mentes. Dúvidas e mutações são o mote do livro tendo como cenário Copacabana, único lugar no Brasil com características de mistura humana absoluta, num curto espaço geográfico, gerando sensações de vertigem urbana. São sete dias de ocorrências no bairro.


2. Você sempre escreverá sobre louras, Copacabana, caos? Não tem medo de ser estigmatizado?


FF: Muito pelo contrário. Costumo dizer que artista que é artista é escravizado e ao mesmo tempo libertado por suas obsessões, taras e princípios maníacos que tocam no nervo da sua imaginação. Extravagante saída de uma observação apurada e emocionada do cotidiano. Artista tem que ter coca-cola interior, ou seja marca registrada de fantasia e eu uso Copacabana, louras, caos, apocalipses tecnológicos, superficialidades pops e outras coisas mais para abrir divertidamente, sinistramente a cabeça e os olhos das pessoas: pra definitiva e maravilhosa estranheza catastrófica do mundo contemporâneo. Esse é o último de uma trilogia que começou com Santa Clara Poltergeist e continuou com Básico Instinto. Todos tendo como ponto de partida social o super-bairro. Agora não preciso especificar mais um lugar, pois para mentes extravagantes como a minha, o mundo tá muito confortável globalizado e sempre em crise como num infinito quadro de Bosch colado num cartaz de lingerie jogado por aí.



3. O que é ser escritor para você?


FF: Basicamente é botar um freio nos demônios, exorcizando a si próprio e consequentemente toda a sociedade junto. Para mim escritor sofre de esquizofrenia misantrópica: ao mesmo tempo que se comunica com todo mundo na calada das páginas, quer mais e que se foda tudo e todos numa festa de revelação de todas as vontades, desejos e taras. Qualquer artista tem muito de anti-social, pois o egoísmo é a base de seu trabalho. Não acredito em artista engajado nem em arte sustentada porque o que move quem escreve é a insustentável pertubação do estar vivo. Mas tem um lado menos dramático, bem normal que é do escriba prostituto-com-prazer. Topo tudo (mas não qualquer coisa): letra de música, livro de pornografia sórdida, relatório de polícia, roteiro de cinema, peça de teatro etc. Daí tiro meu sustento. Escritor é isso aí.

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Sobre os jovens:
- A juventude acabou. Nos anos 50, achavam que tudo estava na mão dos jovens, e eles se mostraram seres humanos como todos os outros: imbecis.

Sobre Freud e a psicanálise:
- São os sobrinhos do patológico: Euzinho, eguinho e selfzinho.

Sobre o repórter policial da peça:
- Ele segue o lema dos Humanistas Anônimos: "Há 2.254 dias deixei de desejar um mundo melhor".

Sobre a democracia:
- É um garoto jogando bolinha no sinal. Uma bolinha é a anarquia da favela, a outra é a tirania das máfias. Uma passando a mão na bunda da outra.

Sobre o Hamlet dos nossos dias:
- O Hamlet contemporâneo não segura mais a caveirinha. Fica com um celular averiguando a quantas andam os seus sentimentos: 10% amor, 90% ódio dos pais.

Ainda sobre Hamlet, e sobre a vida:
- Ser ou não ser virou privilégio dos travestis.

Sobre a vida, de novo:
- Depois dos 40, quem ainda fica com papo juvenil tem que sacar o FGTE, o Fundo de Garantia por Tempo de Existência.

Ainda sobre a vida, agora aos 50 anos:
- Augusto dos Anjos que me perdoe, mas meu poeta favorito agora é Sérgio Franco. O laboratório.

E a moral da história:
- Você está nervosa porque o sociopata se tornou o herói contemporâneo? Calma, chuchu.

 

 

Fausto Fawcett

A cara de Copacabana

Fausto FawcettJornal Copacabana: Ao longo da sua carreira, Copacabana está presente na maioria de suas músicas, livros... Você traz a tona o submundo das armas, camelôs, “cachorradas”, pornografias e o que a sociedade considera transgressão. O bairro é o seu preferido. Isso é uma tara? Qual a sua relação com Copacabana?
Fausto Fawcett: É uma tara completamente pertinente e justificável do ponto de vista de uma animação para a vida e para produzir artisticamente. Tenho uma imaginação extravagante... Unindo isso a um bairro, uma cidade e um país que também são... (risos) Digamos que Copacabana seja o resumo do país. A paixão pelo bairro tem a ver com esse clichê que é essa mistura absoluta, essa promiscuidade democrática que atinge todo tipo de pessoas, de todas as classes sociais.
Mas o principal é a tara cosmopolita! Eu tenho e que Copacabana aumentou. Nos outros lugares tem tudo que tem aqui, mas disperso. Em Copacabana tudo está concentrado.
É absurdo dizer que quem tem grana, hoje, está indo morar na Barra! Não é verdade. Tem muito rico camuflado em Copacabana. Milionários se mudam para cá até hoje!
A riqueza do bairro, a oferta de gente e de natureza abafam o que dizem sobre ser sufocante, aqui tem mata e tem um horizonte enorme para nos refugiarmos.
Copacabana foi emergente em 1930!

J. C.: Acredita que o bairro tenha alcançado o “sub” nos últimos 60 anos?
F. F.: Na verdade esse submundo sempre existiu. Se pegar uma revista de 1950, quando tinha o glamour que deu fama ao bairro, você vai encontrar reportagens falando sobre o glamour do submundo de Copacabana. Porque, também, os outros submundos não tem glamour! (risos). Os inferninhos começaram a se estabelecer como cartão postal do submundo. Copacabana é diferente: até na questão dos idosos, que estão em grande quantidade, somos vanguarda!
J. C.: Você é um observador e estudioso do ser humano, não é? Desde quando?
F. F.: Desde adolescente, que é quando cai a ficha do que você veio fazer no mundo e o que espera dele. Comecei a me interessar em pesquisar as pessoas. Sempre tive implicância com o que é morno, parado... Por uma questão de carioquice, essa implicância sempre foi bem humorada. Mas só “entrei numa” de que era submundo, e comecei a usar essa palavra, bem depois da adolescência.
Morei no verdadeiro Beco das Garrafas, quando realmente jogavam essas pela janela por causa das brigas e barulhos das boates que, toda noite, assombravam os moradores do beco. Era tudo muito natural e, até, familiar! Titia e vovó guardavam garrafas para jogar, todo dia! (risos). Nesse tempo, jogávamos bola de manhã. E as meninas, saindo do trabalho, das boates, jogavam com a molecada com saias curtíssimas... Era muito natural pra mim... (risos) E continua sendo! A diferença é que eu cresci e elas estão cada vez mais empresariadas! Aprendi que esse lado mafioso da vida funciona muito bem, tem estrutura.
Comecei a observar o ser humano em uma perspectiva tragicômica! Entre dois nadas - o que aconteceu antes de nascermos e o que acontece depois de morrermos - ficamos embromando: criando civilizações, amando, destruindo esperanças...
J. C.: Se o ser humano cria as convenções? O que é certo e errado? Existe?
F. F.: Certo é duvidar de tudo! Evolução e progresso são invenções completamente malucas, ilusões que só perdem para Deus... Esteticamente são sensacionais, mas eticamente são uma porcaria! É comprimido anestésico, é patologia de anestesia emocional, mas é assim mesmo, tem que haver uma ilusão...
J. C.: Existe uma solução para mundo? Você costuma dizer que o Brasil é um abismo que nunca chega. Chegamos, finalmente, ao abismo?
F. F.: Ele nunca chega... Não cai, fica na vertigem, essa é a graça! A visão de mundo é cristão-humanista. De certa forma o cristianismo criou o livre arbítrio e um lugar no mundo onde vai sofrer e ter a redenção. Nós passamos para a história. O homem é o ápice! Se não acredita em Deus, acredita na história! Que é o dono da história. E essa invenção do cristianismo de que todos vão ser felizes ao mesmo tempo, é demais! As pessoas vivem atormentadas com progresso e evolução... Isso é muito mesquinho! O que a humanidade fez por religião?!
J. C.: E o que continua fazendo...
F. F.: É. Mas hoje virou patologia. Não adianta dizer que vou fazer tal coisa por um Deus, são todos como as torcidas organizadas! Não tem mais nada a ver... Concordo com o Diogo Mainardi: tem que tratar a humanidade a socos e pontapés! É mais divertido.
J. C.: Em 2001, você lançou um CD com livro, onde falava sobre o Hallowen incorporado a sociedade brasileira através de uma análise de Copacabana. Cita, ainda, o domínio norte-americano, na figura da águia pousada com grandes asas para cobrir o mundo. O Brasil está vendido, influenciado? Se sim, isso é ruim ou não faz diferença?
F. F.: Não faz diferença. É algo constatado. Os Estados Unidos não são o primeiro império da história. Temos que sofrer influência, é natural. Deixa chegar a influência. Colocamos exu e adequamos à nossa cultura! É a festa dos mortos! Se o América é o segundo time das pessoas, a América é uma espécie de segunda pele. Não adianta reclamar.
J. C.: A cidade ficou realmente tomada pelo caos. Vidigal, Rocinha, Complexo da Maré, Pavão-Pavãozinho... É a guerra, o submundo de camelôs e cachorradas. Você já atentava para isso desde o final dos anos 80. Considera-se um visionário dos tempos atuais?
F. F.: Acho que é bolsa de valores. Você identifica uma característica social, que ainda não está totalmente aparente, atenta para o fato e exagera. Se daqui a alguns anos acontece, como foi o caso, vira uma premonição anunciada.
Rio 40 Graus vai ser difícil de desbancar!
J. C.: Esse ano você lançou a peça teatral Cidade Vampira. Fará outras seguindo essa linha?
F. F.: Foi uma parceria com o diretor Henrique Tavares, escrevemos juntos. Vamos fazer mais duas em 2007: Garotas Suicidas, que é um site! Vamos explorar o fundamentalismo pop, o fanatismo pelo vídeo game, Internet... E a segunda chamará Estados Unidos. Que vai tratar desse domínio e influências do país no mundo atual.
J. C.: Deixou de lado as louras?
F. F.: De maneira alguma! Mas foi uma época. Adoro elas, mas foi um show em homenagem ao teatro de revista, ao Sargentelli, Chacretes, Carlos Machado... Era um show performático. Foi outra fase. Vou fazer um show em janeiro e estou escrevendo ele. Quero usar novamente o nome Robôs Efêmeros, que é do primeiro disco. Gosto do nome e quero resgatá-lo.
J. C.: Enquanto isso você doa o seu talento de compositor para os parceiros como a Fernanda Abreu, certo?
F. F.: Exatamente. É a síndrome da Coca-cola interior. Você tem a marca registrada de fantasia e empresta, cede como se fosse uma franquia...
J. C.: O que gosta de fazer no bairro?
F. F.: Encontrar com amigos nos bares, principalmente no Cervantes. Vou muito ao Bico, Real Sucos, El Cid, adega Pérola, Caranguejo, Eclipse (que fica aberto 24h). Se, por acaso, ainda estiver no pique às 7h da manhã, tem lugar para beber! (risos).
Adoro andar no calçadão. Isso é lei para mim. Bato um papo silencioso com o Drumond... (risos). Copacabana é muito agradável!
J. C.: Acredita que aqui seja o melhor lugar do mundo?
F. F.: Aqui é o mundo! Pode ter lugares um pouquinho melhores como Nova York, Tóquio, Hong-Kong, mas aqui é a matriz, onde a Escandinávia se encontra com o Vale do Jequitinhonha! (risos).
J. C.: Para encerrar, quem é Fausto Fawcett?
F. F.: O nome dá uma dica: por um lado tenho a carga violenta do Fausto Nilo, que vende a alma para o diabo, é megalomaníaco, quer saber coisas... Por outro, a leveza da Farrah Fawcett, que dá o equilíbrio ou desequilíbrio necessário. Isso é interessante! (risos).No final da década de 80, Fausto Fawcett anunciava “a novidade cultural da garotada favelada, suburbana, classe média marginal é informática metralha sub-azul equipadinha com cartucho musical de batucada digital”. Hoje, a violência tomou conta das periferias da cidade e, as palavras de Fausto em Rio 40 graus tomaram a sociedade.


Blog EntryNov 5, '06 3:23 PM
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Artaud

a Europa se esgotou

e tu vieste à América dos tarahumaras primitivos

dançando a força de seus rituais

até chegar ao estágio da visão.



Você queria entender o sol

participar do transe de secretas ordenações

como se tudo fosse uma espécie de lição



e agora alguma coisa te restitui

ao que existe do outro lado de ti

aprende Artaud

a reconhecer os sinais

os deuses nos contemplam dos rochedos

e eles nada pedem

só o físico sobrenatural

só a matéria de tua pele

em carne viva desde sempre

a refletir um sonho que se vai



agora conheces os que curam através do sonho

e sabes que um branco é apenas um homem

que os espíritos abandonaram



agora sabes das cruzes com os espelhos amarrados entre dois sóis

raiz hermafrodita

labareda

faz teu apelo às forças obscuras



Artaud

grande mestre curandeiro

o rito da aurora negra

na noite eterna do sol.

Blog EntrySep 27, '06 12:27 AM
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Como é voltar ao Brasil depois de tanto tempo?
Eu fiquei bem puto por anos porque os brasileiros nunca me convidaram para o Rock in Rio... Eu ficava pensando: “Seus filhos-da-puta artificiais e superficiais, vão se foder!”. Fiquei bem ressentido com isso... Eu já havia tocado aqui antes, showzinho esquisito, com pouquíssimas pessoas na platéia.

Quando foi isso?
1989, em São Paulo, num ginásio de universidade, algo assim, com umas mil pessoas assistindo, na sua maioria estudantes [nota do editor: foi na antiga casa de shows Projeto SP, e em 88]. E depois aqui no Rio, onde foi bom para caralho — um clubinho sujo, não sei o nome, Copa alguma coisa... Lembro que tinha um gato e um rato nos camarins e adorei.

Como foi tocar aqui desta vez?
Senti um astral muito bom, acho que as pessoas realmente gostaram. Não tinha a menor idéia se elas nos conheciam ou não, ou se só gostavam de rock’n’roll tipo Billy Idol, que é só vestir jaqueta de couro, ser bonitinho e ter uma megaprodução. Sabia que vinha o Sonic Youth, que tem um som mais cabeça, e sei que aqui existe o “intelectual latino-americano superprotegido” [risos] — em todo país tem sempre um grupinho de gente com grau universitário que nunca é ameaçado... Pensei: “Bem, se eles gostam de Sonic Youth, o que vai ser de nós?”. Subitamente o público foi tão receptivo, as pessoas estavam com uma mente aberta. Não sei e não me interessa qual era a expectativa que elas tinham, mas era visível, enquanto tocávamos, que elas estavam com os olhos e ouvidos abertos e, aí, o público começa a entrar no ritmo. Essas coisas são bem básicas, mas são as mais importantes, sabe?

Quando o vejo no palco, me pergunto se em algum momento você se sente como se uma entidade o possuísse.
[Rindo] Uau, já me fizeram essa mesma pergunta... É isso o que você vê?

É como se eu o conhecesse como Jim, e o Jim é um carinha bacana... Aí ele sobe ao palco e se transforma no absurdo Iggy...
Bem, não sei bem o que acontece. Geralmente não me expresso muito. Mas quando estou no palco, fazendo um disco ou qualquer coisa que tenha a ver com música, aí digo “o.k., é aqui que eu preciso”. Sei lá, complete com o clichê de sua preferência: “expressar meu lado humano”; “fazer a diferença”; “passar para outra dimensão”, blablablá, qualquer merda, ser um palhaço, virar um chimpanzé, o que der na telha...

Sente como se estivesse servindo a um poder superior?
Isso eu já não sei... Poderia ser um poder inferior.

O que você costumava fazer nos anos 60?
Eu fazia coisas... Exemplo, depois que consegui montar uma casa para tentar fazer nossa música, eu tomava ácido, ligava um órgão elétrico que eu tinha no porão, colocava o amplificador no 10 e ficava com os pés no teclado por umas oito horas direto. Os pés em cima da porra das teclas, sem mexê-los, nem precisava, porque estava tudo se mexendo, saca? Então passei por toda essa merda idiota… Lembro de outra vez que tínhamos todos fumado DMT e eu vi um Buda enorme, rico em detalhes, no teto dessa casa. Me dei conta de que ele não estava lá de verdade, mas percebi que era detalhado demais, muito mais do que minha mente teria a capacidade de imaginar. Pensei que aquela devia ser minha mente superior, ou inferior, e disse: “Tenho que tirar as roupas”. Estava morando com três caras jovens, minha banda, e eles não ligavam: “Ele tem que tirar a roupa”. Então eu fiquei pelado por um ano [risos]…

E as pessoas da pequena Muskegon, onde você nasceu, que achavam disso?
Sentiam pena de mim. Toquei pelado em uma festa no Halloween de 1967 e todo mundo ficou constrangido. Mas não desistimos. Depois, um jornal universitário publicou um artigo a nosso respeito e só sabiam que meu nome era Pop graças a uma banda chamada Iguanas em que eu tinha sido baterista anos antes. Odiei aquilo. Quem é que quer ser chamado de Pop? Tente paquerar alguém, em 1968, dizendo: “Oi, meu nome é Pop”. As pessoas fazem careta, querem te bater, entende? Hoje funciona, algumas coisas mudaram.

Sabe que às vezes penso em “Search and Destroy” como a trilha sonora do apocalipse... Assim que voltamos a tocar juntos, eu e o The Stooges, alguém me disse: “Isso é maravilhoso, porque houve o Vietnã, agora a guerra no Iraque e vocês voltaram. É o momento perfeito para o The Stooges!”. Então tá, talvez tenha algo a ver: banda de guerra, de repente.

 

Acredita em Deus?
Gosto de um monte de deuses, o deus da xícara de café, o deus da mulher gostosa, deus de todas as coisas. Tem uma palavra para isso... politeísta, é isso, sou politeísta.

E como é que você voltou a trabalhar com os seus antigos comparsas?
É um astral totalmente diferente, porque o tipo de profissional que você consegue quando contrata nunca é tão bom quanto aqueles com quem você está em pé de igualdade.

Então é um lance de lealdade?
Yeeaahh... Mas detesto admitir isso [risos]. Quando aparecem esses sentimentos, penso [voz mecânica]: “Perigo! Este é um sentimento babaca e destrutivo. Pare por aqui. Se liga...”.

Qual é sua impressão a respeito do Brasil depois desses anos todos?
[Sorrindo como uma criança] Grande. Aberto. Descontraído. Legal. Aqui as pessoas não esqueceram como sorrir, elas sorriem até nos encontros normais do dia-a-dia. Sei que existe uma realidade por trás disso, um monte de outras coisas, mas as pessoas são calorosas. Quando cheguei na imigração, no aeroporto, já dava para perceber um mundo totalmente diferente. Eu meio que invejo você, morando aqui. Na verdade não gosto de morar nos Estados Unidos, continuo lá só porque não desisto, esse é o único motivo. Eles não vão se livrar de mim tão facilmente, hã hã. As ruas têm um astral bem bacana e as pessoas em geral são mais magras que as norte-americanas. Dá a sensação também de que elas têm mais tempo, e me identifico com isso porque sou do Meio Oeste americano, onde temos muito tempo livre porque não há porra nenhuma para fazer.

Você vê potencial pra ter esse mesmo nível de popularidade aqui?
Não diria que não. Estava falando à minha namorada, Nina: “Ei, talvez a gente conseguisse trabalhar de verdade aqui, tipo vir de novo e tocar um pouco mais...”. Mas não sei qual é a força da MTV aqui, porque eles tendem a distorcer tudo e a TV é uma potência.

Fico me perguntando, são as pessoas que assistem à TV ou a TV que assiste a elas?
É bem sinistro. Tem um bairro aqui que é inteirinho uma TV, passamos por ele indo para o show [Projac, da Rede Globo]... E tem a Barra, 30 quilômetros de lixo pré-fabricado e aquela horrível merda moderna, um lugar chamado New York City Center e um Hard Rock Cafe totalmente horroroso.

Bem-vindo ao McGlobo, posso tirar seu pedido para uma nova ordem mundial?
[Risos] Com queijo… Mas, cara, eles têm uns 150 quilômetros de praia lá, e eu queria ter aquela praia.

Por falar em Brasil, ouvi uns sons “secretos” que você fez há alguns anos e nunca mostrou pra ninguém, antigas canções da bossa nova que você tocou de brincadeira com sua outra banda, lembra disso?
Cara, merda... Sim, aquela história de bossa nova que eu estava fazendo, uau, você ouviu aquilo?

Vocês estavam tocando João Gilberto, Tom Jobim, alguma coisa da Elis Regina...
Agora me lembro. Realmente gosto dessas canções. Na época eu estava vendo se sabia alguma coisa de música tradicional que pudesse usar para gravar um álbum. Gosto de toda bossa nova, e também da tradição da música popular brasileira. Não sou tão versado nela quanto gostaria, não sei a história do tropicalismo e tudo mais, mas já ouvi muita música brasileira. Conheço o Caetano Veloso, já fui a shows dele, e fui com você ao show da Astrud Gilberto em Nova York, lembra? Sempre penso em fazer alguma palhaçada dessas. Quem sabe um disco de Natal? Mas tenho que esperar o Rod Stewart parar de fazer os seus [risos].

O que te diverte mais no rock’n’roll?
Dos 18 até uns 40 anos de idade, meu ideal de diversão era basicamente fumar um grande baseado durante um dia lindo, fazer sexo e... só, entende? Os únicos outros momentos em que me sentia bem eram quando eu criava algo novo musicalmente, como a primeira vez em que ouvi o playback de “Search and Destroy” no estúdio e me dei conta: “Caramba, isso aqui tem mesmo qualidade, tem um pouco de imortalidade aqui”. Houve um momento específico que foi um daqueles momentos clássicos, que definem a sua vida. Era primavera, aula de álgebra, primeiro colegial. A professora era uma velha, falando sem parar, o dia lá fora estava lindo e eu me senti mal. Fiquei com dor de estômago, a pele ficou mal, engordurada. Fiquei com falta de ar, não conseguia mais ouvir a voz dela e só queria pular aquela janela. Pensei: “Se fosse um músico, não estaria aqui agora mas fazendo qualquer bosta que me desse na telha”. Para mim, sempre foi sobre liberdade.


O último punk
O músico e ativista Jello Biafra atira suas pedras nos EUA, na cena musical e na sua ex-banda, os Dead Kennedys
 


Se os Ramones são os pais do punk, este cara é o professor. Fundador do Dead Kennedys, Jello Biafra trouxe política e inteligência para dar sentido a toda fúria daquela geração raivosa anti-sistema. Assustado com o reinado de Bush II e o caminho que o mundo tomou, aquele que ainda pode sustentar a jaqueta de punk só não se desespera porque preservou algo que a própria cena que ajudou a criar vendeu – a alma

Por Bruno Torturra Nogueira

Um telefonema brasileiro para os EUA gera dinheiro e tributos para esse país. Até na ligação atendida pela secretária eletrônica de Jello Biafra, o governo americano ganha dinheiro. Dinheiro que, de acordo com a tal gravação de voz grave, ajuda a alimentar uma perversa máquina de guerra que está fadada a arruinar o império estadunidense.

Beeeeeeeep.
-Alô, Jello? ...Jello?

- Alô! Sim, sim. Posso falar agora.

É um homem de 48 anos que acha o dinheiro uma das drogas mais perigosas. Que não fala nada sem pensar, cita datas e sobrenomes de governantes internacionais com requintada precisão. O homem que é um dos mais cáusticos e influentes críticos da política de seu país natal, insuflando idéias socialistas e revolucionárias para centenas de milhares de jovens há mais de 20 anos. Que já se candidatou a prefeito de San Francisco há 27 anos. Um homem que passa seu dia lendo e escrevendo tanto que mal tem tempo para usar computador. Ele não tem computador. O homem que pode ser considerado o maior punk vivo.

Jello Biafra vive perto de São Francisco em uma casa própria sem muito luxo. Tem gravadores, muito papel e uma enorme biblioteca carregada de livros de história e política, seu assunto favorito. Até porque, para ele, política e música não são lá muito diferentes. Desde que chegou à fama com sua antiga banda, os Dead Kennedys, suas letras, fúria e uma inconfundível ironia estão a serviço da resistência ao silencioso totalitarismo que, segundo ele, faz dos EUA o triunfo do facismo.

Jello adora falar. Mesmo quando enumera vitórias de seus desafetos ele parece sentir certa alegria vaidosa, comum nos homens coerentes. Como ao se referir aos próprios “colegas” dos Dead Kennedys, hoje declarados inimigos. Ele ri ao contar como foi usurpado de suas próprias composições depois de uma batalha legal pelo controle sobre a obra dos DK. Hoje Biafra não manda nos direitos e é obrigado a ver suas músicas em comerciais publicitários, a banda em turnê em festivais pagos por grandes corporações com seu rosto nos cartazes – tudo o que sempre lutou contra. Mas Jello Biafra recomenda veementemente: “Não vá aos shows dos Dead Kennedys nem compre os discos!”.

Vez ou outra o autor recebe alguma grana desses dividendos, que usa para cobrir o inevitável saldo negativo de seu selo musical, Alternative Tentacles Records, que lança bandas do underground americano. Punks? Nem sempre. “Música criativa”, diz ele, que entre um livro e outro pode gastar tempo escutando country music, trilhas de filme ou uma nova descoberta.

A ligação de uma hora chega ao fim como uma aula magna de coerência em vida. Trinta e cinco reais o custo, direto para a conta de alguma grande corporação. Quanto disso vai para o governo americano, para o fundo que financia as guerras ou a próxima campanha de Bush, não se sabe ao certo. Certeza é que Jello vai seguir firme, mesmo que a guerra já esteja perdida, lançando discos, discursando e esvaziando seus bolsos para convencer a molecada que o segue como um pastor humanista de que a última coisa que o dinheiro traz é felicidade.

Você vota? Sempre voto no partido verde e em candidatos radicais para presidente e outros cargos. Mesmo que eles não ganhem, eu prefiro votar em algo que eu quero e não ganhar do que votar em algo que não quero e ganhar.

Então você acredita em democracia? Eu acredito em democracia, mas não acho que vivemos em uma. Os EUA são uma democracia administrada por empresas, onde até a imprensa é domada. Muito parecido com a Rede Globo no Brasil. Significa que as pessoas têm uma ilusão de escolha entre partidos, mas não interessa em quem elas votem, o povo perde e as corporações ganham. Para mim as eleições locais são as mais importantes porque é onde o dinheiro é gasto no fim das contas.

Você pensa em se candidatar de novo? Eu fui candidato há muito tempo, para a prefeitura de San Francisco em 1979. E nem naquela época eu planejei ser candidato, só veio a idéia na minha cabeça quando o baterista dos Dead Kennedys disse que eu falava tanto que deveria ser candidato à prefeitura e eu disse, “ok, sou candidato”. O falatório foi tanto que eu não pude recuar. Escrevi minhas plataformas em um guardanapo em um backstage.

Você simpatiza com a esquerda da América do Sul? Sim. Sei que Lula e Chavez são contra a Alca. Isso é ótimo, porque o Primeiro Mundo que tem todo o dinheiro já foi dominado pelas corporações. O Terceiro Mundo carrega a esperança de parar as empresas que dominam o mundo como uma ditadura feudal.

Você já pensou em deixar os EUA? Minha resposta é não. Esse é um país tão estranho e bizarro que eu não gostaria de morar em outro lugar. Onde mais um fundamentalista cristão queima um coelho da Páscoa gigante em uma praça alegando ser um ídolo profano e é preso porque a fumaça poluiu o ar? Isso aconteceu. Eu não me daria bem no Brasil, não sei se há por aí boa comida mexicana. Mas me lembro bem de como a comida italiana era boa. Aliás, me impressionou como os brasileiros comem tanto!

Sério? Eu fui a uma cantina e trouxeram pães, depois uma salada enorme, depois uma tigela gigantesca de massa e depois um prato principal. E todo mundo come tudo isso e não engorda. Apesar de o João Gordo não ser exatamente assim...

Mas você sabe que o Gordo mudou bastante? Emagreceu, faz exercícios. Isso é bom. Queria encontrar com ele novamente. Ficamos bem amigos em 1992 quando fui ao Brasil.

Recentemente o próprio Gordo foi patrocinado pela Nike para correr uma maratona. As marcas parecem cada vez mais associar sua imagem ao punk e a comportamentos subversivos como forma de parecerem “cool”. O que pensa disso? Isso eu não sabia sobre o João. Acho que cada artista deve decidir como lidar com esse assalto das corporações, mas um dia eu recebi um disco de uma banda brasileira chamada Gangrena Gasosa e fiquei chocado com a quantidade de logotipos de empresas no encarte. Sei que o Brasil é pobre e que as pessoas precisam de dinheiro, mas no meu caso sou radicalmente contra. Minhas músicas e minha pessoa não são feitas para se transformarem em comercial. Por isso eu sou cruelmente punido pelos meus ex-colegas.

Como assim? Me processaram por seis anos porque eu não deixei “Holiday in Camboja” servir de trilha em um comercial da Levi´s. Eu disse no tribunal: “Se quiserem ser prostitutas das corporações, escrevam vocês as músicas”. Mas eles disseram que as músicas eram deles também e o júri engoliu. Os direitos agora são controlados por uma firma que não respeita a posição original da banda. Eu não decido onde minhas músicas e voz serão usadas. Tocaram em um festival de uma cerveja que patrocina políticos de extrema direita. Agora eles fazem turnês com um vocalista que parece o Vanilla Ice e colocam minha foto nos anúncios.

E você ganha dinheiro disso? Algum dinheiro. Mas não sei se é tudo que eu deveria receber, já que não posso ver a contabilidade.

Você fica com a grana? Se eu não ficar, eles pegam tudo. Não acho errado eu ganhar esse dinheiro, ainda assim me sinto roubado. Porque a coisa não está sendo administrada como os Dead Kennedys, mas sim como a banda de “punk” Blink 182.

E como você gasta seu dinheiro “excedente”? Eu gasto muito com meu selo, ajudando outros artistas. Algo que adoro fazer: dar ao público um monte de música legal que está sendo feita. Meu selo, Alternative Tentacles Records, nunca, nunca deu lucro. É o que mais gosto e tem muitas recompensas.

Você é um homem rico? Não [silêncio]. Eu não nasci rico, meu pai era assistente social e minha mãe bibliotecária. Mas eram muito bons em lidar com dinheiro. A gente não gastava com coisas de luxo e brinquedos, mas guardavam dinheiro para viagens e faculdade. Hoje eu tenho mais dinheiro do que muita gente do underground e tento não guardar mais dinheiro do que o necessário.

A cena punk é decadente? Depende. Por um lado, sim. Muita gente prejudica a criatividade e a solidariedade do underground por rotular gêneros e discriminá-los. As pessoas teriam mais a ganhar se escutassem e criassem músicas sem pensar a que categoria pertencem. Talvez por isso mesmo o punk brasileiro seja tão interessante. A primeira vez que escutei Ratos de Porão e Olho Seco eu fiquei chocado com aquele som de guitarra que parecia uma serra elétrica. Me cansa escutar moleque tentando imitar o que já fizemos há tempos e ignorando novos sons.

Você se considera pessimista? Esses rótulos eu tento evitar e pensar de assunto em assunto. Se eu sou anarquista? Não exatamente. Se eu sou socialista? Talvez sim, mas não em todas as áreas. Eu tento basear minhas opiniões, minhas crenças e meu voto no que faz sentido.

Você é um homem feliz? Às vezes.

 

Na Trip #148, Jello Biafra enche a secretária eletrônica (e os cofres das telefônicas ianques) com um punhado de palavras sobre MST, Dodô e Osmar (!?!), música gaúcha, Deus, Max Cavalera e seu trio elétrico de metal, Mutantes e o futuro do mundo...


Depois de dezoito anos na estrada, o Mudhoney é uma das pouquíssimas bandas remanescentes de todo o Hype de Seattle. Os tempos mudaram de lá para cá. Eles saíram de uma grande gravadora e voltaram para o seu selo original, Sub Pop, e atualmente têm que trabalhar em empregos normais para manter a banda. Mas talvez nessa despretensão esteja o segredo de sua longevidade. Eles recentemente voltaram com o disco Under a Billion Suns, elogiado pela crítica, e no ano passado estiveram no Brasil abrindo os shows do Pearl Jam. Mark Arm, o vocalista da banda, também passou por aqui tocando junto ao DKT/ MC5, o retorno do MC5, lendária banda dos anos 60. Tendo sido o fundador do Green River, banda que definiu a chamada “estética grunge”, atualmente segurando os vocais da banda de rock psicodélico Monkey Wrench e liderando o Mudhoney em mais de nove discos, pode-se dizer que ele é um dinossauro do rock. Agora, em exclusividade, Mark Arm fala a Rock Life diretamente do calabouço do império em declínio, o depósito da Sub Pop. Sempre com a mesma despretensão tão característica no seu trabalho.
Por Carlos Messias


Carlos Messias: Após quatro anos, o Mudhoney lançou um disco novo, Under a Billion Suns. O que ele apresenta de diferente, com relação aos demais discos do Mudhoney?
Mark Arm: São todas músicas novas – risos.

CM: Certo, mas talvez alguma diferença de estilo, produção, etc. Notei uma sessão de metais que tem estado presente desde Since We’ ve Become Translucent.
MA: Sim, é uma amostra do trabalho que temos realizado.

CM: E quanto ao conceito de Vinil Digital (uma versão integral do álbum em cd, que acompanha o disco de vinil), no qual a Sub Pop lançou Under a Billion Suns.
MA: Conheço muita gente que prefere discos de vinil, mas também tem aparelhos de MP3, como I-Pods. Isso faz com que seja muito mais difícil com que você extraia a música do seu álbum. Então, para aqueles que preferem vinil, resolvemos incluir um cd.

CM: Esse é o primeiro disco do Mudhoney em que claramente se identifica certos temas políticos...
MA: Não estou certo quanto a isso. Tivemos uma música chamada Rip Talking e essa foi provavelmente a nossa música mais política. É sobre um deputado republicano que acabou se tornando líder da coalizão cristã local. E em My Brother the Cow tem uma música chamada F.D.K. que é sobre “direitistas” e sobre as pessoas do Right to Life (movimento antiaborto). Essa também foi uma música claramente política.

CM: Recentemente você tocou com o MC5. Como foi essa experiência para você?
MA: Foi incrível. Não sei se você foi no show em São Paulo.




CM: Fui, foi o melhor show que eu vi na minha vida.
MA: No verão antes disso, acho que seria o seu inverno, participei de uma turnê de quatro meses com eles, então acho que eu já estava bem afiado quando desembarcamos por aí.

CM: Além disso você veio para o Brasil no ano passado com o Mudhoney, para abrir os shows do Pearl Jam. Como você sentiu a recepção do público nestas apresentações?
MA: Foi fantástico! Foi muito bom em toda a América do Sul, mas realmente esteve um nível acima no Brasil. Acho que porque já havíamos estado aí.

CM: Na turnê que vocês fizeram em 2001, vocês sentiram uma presença mais maciça dos fãs do Mudhoney?
MA: Sim, quando fazemos nossos próprios shows, as pessoas comparecem para nos ver. Quando abrimos para o Pearl Jam elas estão lá para ver Pearl Jam. Mas acho que havia certa porcentagem do público que sabia quem éramos e curtiam o que nós fazíamos. Provavelmente uma porcentagem bem maior do que a das pessoas que talvez não sabiam quem éramos, mas, mesmo assim, estavam abertas para nos ouvir, e pareceram curtir o que estávamos fazendo. O que não ocorre sempre – risos. Pois quando você toca em festivais, ou principalmente quando abre um show, as pessoas chegam tarde, não dão a mínima para quem
está abrindo...

CM: O set de vocês poderia ter sido um pouco mais longo. Foram o quê, vinte, trinta minutos?
MA: Acho que devem ter sido trinta minutos em São Paulo. Normalmente estávamos com um set de quarenta, mas por algum motivo em São Paulo tivemos que tocar menos.

CM: Foi por causa do Serra, nosso ex-prefeito. Ele ficou criando caso.
MA: Risos - Eles sempre criam, não?

CM: É verdade. Durante o show do Pearl Jam, você e Steve (guitarrista do Mudhoney) entraram no palco. Vocês pensaram em tocar alguma música do Green River (antiga banda que reunia Mark e Steve do Mudhoney, além de Stone Gossard e Jeff Ament do Pearl Jam)?
MA: Sim, originalmente pensamos em tocar Come On Down – risos. Eu estava com uma cópia do disco, mas aí quando ouvimos a música, para nos lembrarmos dela antes de tocá-la ao vivo, o Jeff falou “Hey, essa música é muito ruim” – risos.
Então ficamos com Kick Out The Jams e Rocking In The Free World, que são tão melhores que Come On Down – risos.

CM: Rocking In The Free World vocês só tocaram no México, não?
MA: Eu acho que a tocamos duas vezes, uma no México e a outra não sei onde.

CM: Depois de 18 anos na estrada, o Mudhoney é uma das únicas remanescentes do Hype de Seattle dos anos 90. Atualmente, como tem sido tocar no Mudhoney, em termos de shows, atenção da mídia e vendagem de discos?
MA: Eu não sei – risos. Acho que depende de onde você está. Países diferentes nos percebem de maneira diferente.

CM: Mas você não sente que vocês foram de certa forma injustiçados pela coisa toda? Pois o Green River e o Mudhoney definiram a chamada “estética grunge” e não foram quem mais lucrou com isso.
MA: Não acho que nós definimos nenhuma estética que se tornou popular.

CM: Qual é, Mark?
MA: Falando sério! Falando sério!

CM: Se você escutar Come On Down (primeiro disco do Green River) por exemplo, nota-se algo de muito original nascendo ali. Que, de certa forma, explica o que veio depois.
MA: Sim, claro. Mas você escuta bandas no rádio que soam assim?

CM: Não, não escuto.
MA: OK. O que nós fizemos foi pioneiro e tal, mas não foi nada que se transformou em alguma espécie de movimento comercial.

CM: Você acha que foi mais uma associação da mídia?
MA: Sim, foi uma versão empobrecida do que rolava em Seattle no começo dos anos 90.

CM: E você acha que na cena do rock atual existe alguma banda nova que vale a pena ouvir?
MA: Claro! Claro!

CM:
Como quais?
MA: Ah... Comets on Fire,
Black Mountain, Country Teasers, The A-Frames, Time Flies, The Apes…
Ainda existem bandas de todo tipo por aí.

CM: Mas quais são suas influências musicais mais vívidas?
MA: MC5, Stooges, Birthday Party, Nick Cave, Blue Cheer, ah…
Meu Deus, sempre empaco quando me fazem essa pergunta. Black Flag, Black Sabath, o início dos Butthole Surfers, Can, Charles Mingus, The Sonics, Devo – risos. Gosto de todo tipo de coisa.

CM: Hoje de manhã, quando estava indo trabalhar, o que você estava ouvindo no seu carro, por exemplo?
MA: O que eu estava ouvindo esta manhã, antes de você ligar, era Bill Monroe.

CM: Falando no MC5, planos em fazer algo com eles em breve?
MA: Bem, o Michael (baixista) quebrou a coluna em um acidente de moto. Ele está aparentemente bem, falei com ele há algumas semanas por telefone. Mas acho que ele vai precisar de algum tempo para se recuperar. Sei que fomos convidados para tocar no festival All Tomorrow’s Parties (com Iggy & The Stooges) em dezembro, espero que consigamos fazer isso.

CM: O Mudhoney não faz turnê pelos estados unidos há mais de oito anos. Por que?
MA: Sim, a última turnê que fizemos foi 1998, com Tomorrow Hit Today. Nós simplesmente não podemos sair mais em turnê como costumávamos. Porque, por exemplo, Guy (o baixista) é enfermeiro na UTI do Hospital de Trauma local. Ele só tem duas semanas de férias pagas por ano. Dan, nosso baterista, acabou de ter o seu terceiro filho e ele é um pai que fica em casa. Então ele não pode fugir disso por muito tempo. Por isso não fazemos mais turnês como costumávamos. O fato de que conseguimos fazer uma turnê de três semanas por aí com o Pearl Jam foi um verdadeiro milagre.

CM: E ficamos sabendo que você trabalha na Sub Pop. O que você faz aí?
MA: Eu trabalho no depósito.

CM: Você poderia nos adiantar algo sobre o DVD do Mudhoney, atualmente em fase de produção?
MA: Está tão longe de estar pronto que eu ainda não sei o que vai ter nele.

CM: Gostei muito do novo clipe, It is Us. É o primeiro clipe desde o disco My Brother The Cow, não?
MA: It is Us é um clipe engraçado, com certeza estará no DVD. Mas na verdade o nosso último foi da música Sonic Infusion, do disco Since We’ ve Become Translucent.

CM: Ah, é? Eu não vi esse.
MA: A maioria das pessoas não viu – risos.

CM: Nos fale um pouco sobre o disco The Freewheeling' Mark Arm de 1990.
MA: Risos – O que tem ele?

CM: O que foi aquele disco, um tributo ao Bob Dylan?
MA: Sim, são covers do Bob Dylan.

CM: Onde esse disco pode ser encontrado?
MA: Eu não sei, acho que está fora de catálogo. Na verdade eu sei que está fora de catálogo, pois estou aqui no depósito (da Sub Pop) e não vejo nenhum por perto – risos.

CM: E você tem alguma expectativa concreta em lançar Gabriel’s Horn, o novo álbum do Monkey Wrench que já está gravado. Soubemos que a Estrus (antiga gravadora da banda) decidiu não lançá-lo mais.
MA: Eu acho que vai sair pela Bergman no começo do ano que vem. Eu gostei muito desse disco, acho que ele é muito, muito bom. É uma pena ter demorado tanto para sair.

CM: E o Mudhoney, tendo tantos discos gravados, como fica a seleção do set list. Percebi que vocês andam deixando de fora verdadeiras pérolas como Further I Go e Broken Hands.
MA: Acho que tocamos Further I Go não faz muito tempo. E recentemente reaprendi a tocar Broken Hands com o Guy. Na verdade é uma das minhas favoritas. Se ela não fosse tão longa, se fosse apenas um minuto mais curta teria entrado na coletânea March to Fuzz. Essa é definitivamente uma das melhores músicas que já fizemos.

CM: E poderíamos esperar vocês no Brasil em breve?
MA: Espero que sim, só não sei quando. Mas quero muito, eu amo o Brasil, adoro ir para o Brasil.


 


Blog EntrySep 5, '06 8:33 PM
for everyone
 

Entrevista com Nick Cave, realizada por Fábio Massari em 1992

Tenho te visto com freqüência em São Paulo. Você pretende se tornar um cidadão paulistano?!

Na verdade essa é uma boa pergunta. Quando menos percebo estou em São Paulo, e a maior parte do tempo não sei me responder porque estou aqui. Acho que a idéia básica é fugir da Inglaterra, estou cansado da Inglaterra e da Europa em geral. O Brasil tem um tipo de vida que me agrada. Só não sei por quanto tempo vou ficar, não tenho a mínima idéia.

Acho que sei pelo menos um bom motivo para você estar no Brasil agora: o relançamento do seu disco The Good Son.

Tive problemas com a gravadora, problemas de distribuição, e o disco acabou não chegando às lojas. Na Europa, ele foi muito bem, vendeu duas vezes mais do que qualquer um dos anteriores.
Fico meio desapontado, afinal de contas, o disco foi gravado aqui, há uma série de sentimentos, vibrações brasileiras envolvidas. E não estou falando de dinheiro... o retorno financeiro seria vastamente superior se eu tivesse feito tudo, e ficado, em Londres.

Vamos fazer uma volta ao passado.

Entrar no túnel...

Críticos-especialistas têm colocado com certa freqüência o nome do Birthday Party ao lado de Velvet Underground, Stooges e MC5, na tentativa de amarrar, alinhas essas bandas seminais. O que você acha disso?

Eu particularmente não diria que fomos tão importantes quanto o Velvet Underground, mas vejo, sim, uma linha costurando essas bandas. Todas eram muito primais e violentas, tinham um modo violento de encarar as coisas, ainda que o fizessem de maneiras diferentes.

Desses, os Stooges são a maior influência...

Tudo começou quando eu era garoto e comprei o Raw Power.

O estrago provocado pelos Stooges na Austrália é enorme, né?

A importância deles é crucial, principalmente para o nosso (australiano) movimento punk. Na Austrália muita gente conhecia e gostava da banda, enquanto que na Inglaterra eles eram completamente ignorados. O punk se auto-gerou de maneira alienada por causa de grupos como o Sex Pistols, que não se importavam com o passado, mesmo com os Stooges. Mas nós nos importávamos. Sempre nos preocupamos com as raízes da música, de onde ela vem.

E o papel dos Saints, no punk, no rock autraliano?

Ninguém pode ignorar os Saints! Para mim eles são a maior banda australiana... são a maior banda de todos os tempos.

Você acha que a “importância” deles para o punk australiano é maior do que a do Radio Birdman?

Infinitamente! Havia, na época, duas escolas de pensamento: em Sidney ouvia-se e soava-se “hard rock”, era a área de bandas como o Radio Birdman; em Melbourne, que é mais ou menos de onde eu venho, as influências eram Stooges e logo depois os Saints. Eles não foram uma influência só na música do Birthday Party, mas em toda a minha vida.

E que tipo de recordações você tem da época do Birthday Party?

Para falar a verdade não me lembro de muita coisa. Foi um blackout que durou quatro anos. Ficamos boa parte do tempo em Londres, algo por volta de quatro anos... nunca tive muita certeza de quanto tempo durou a banda. Tocamos em todos os buracos sujos de Londres – você conhece alguns deles – e fomos totalmente desprezados pela crítica e pelo público. No nosso primeiro ano de vida, acho que só tocamos umas três vezez. Lavei muito prato para poder sobreviver. A coisa começou a crescer no segundo ano, quando passamos a perceber que tínhamos um público só nosso e que esse público tinha um modo “muito” particular de se relacionar com a banda.

A separação da banda se deu de maneira meio conturbada...

O final foi meio desastroso, eu diria. Percebemos que não havia para onde ir, e os discos são um testemunho disso. Musicalmente, tínhamos atingido o nosso pico. O problema maior foram os shows: no começo, éramos nós que atacávamos diretamente o público, encostando-o na parede, assustando-o . Mas a situação se inverteu de maneira estranha, ao ponto desse público exigir que abusássemos dele, queriam que descarregássemos toda nossa violência sobre ele... o que acabou invalidando a nossa proposta inicial. E a essa altura, metade da banda odiava a outra metade.

Daí para a carreira solo foi um passo fácil?

O passo que eu dei, o mais lógico para mim, foi abandonar tudo. Foi o Mick Harvey quem insistiu para que eu continuasse. Eu sempre faço o que ele manda, é o meu “padrinho”. O Blixa Bargeld também ajudou na minha volta, já que éramos amigos há um bom tempo. Ele sempre me impressionou como guitarrista, a verdadeira antítese do Rowland Howard. Rowland nunca soube se controlar, sempre tocou o mais alto possível, continuamente, o que era bom para o Birthday Party, mas isso acabou bloqueando qualquer tentativa de evolução. Já o Blixa sabe quando toca e quando ficar quieto.

Você sempre esteve ligado, de alguma maneira, ao cinema. Do elogio ao nosso Pixote às participações em filmes como Asas do Desejo e Ghost Of The Civil Dead.

Eu amo o cinema. Posso assistir a qualquer coisa, pois o que me agrada é o ato físico de sentar numa sala escura para ver o filme... Trabalhar no cinema é outra coisa! Não considero minha aparição em Asas do Desejo um trabalho cinematográfico, estávamos só tocando. Ghost Of The Civil Dead é um bom filme, opaco… Acabo de participar de um filme chamado Johnny Suede, em que faço o papel de um músico velho, albino e junky – possivelmene o pior papel que eu poderia ter aceito e que pode se transformar no maior constrangimento da minha carreira cinematográfica. Não sei muito bem porque fui aceitar o papel, acho que é porque achei que estava ficando muito exigente, preciosista demais nas minhas escolhas.

E quanto a escrever seu próprio roteiro, ou dirigir?

Não tenho intenções de fazer isso. Se eu tirar um tempo para escrever algo, vai ser um livro. Assim ninguém coloca o dedo no seu trabalho. Se você escreve um roteiro e dá esse roteiro para o produtor ou diretor, ele não é mais seu. É simples assim. Eles vão massacra-lo e todo seu trabalho terá sido em vão.

Já que falamos há pouco de Wender, Asas do Desejo e roteiros, textos, dá para fazer a conexão com o escritor Peter Handke aqui... você acha que reflete de alguma maneira o personagem “típico” dessa turma, aquela pessoa em constante movimento, em busca da tal identidade, do lar...?

Acho que sim, consigo ver um pouco desse personagem em mim. Não quero ser mórbido sobre o assunto ou falseá-lo dando ênfase exagerada, mas sinto enorme, incontrolável necessidade de movimento. Não consigo ficar muito tempo no mesmo lugar. Não tenho tido um lar desde que deixei a Austrália! Não tenho pertences, não me apego materialmente às coisas. Você não precisa achar um lar para viver. Vivo desse jeito, uma existência nômade.

Você já se arrependeu de algo que fez no passado, artisticamente?

Eu jamais escreveria algumas das coisas que escrevi no passado. Escrever é crescer – colocar para fora o que você pensa descobrindo suas crenças. Para saber como realmente me sinto com relação às coisas tenho de colocá-las para fora, vê-las de frente. Embora eu entenda as coisas que fiz com o Birthday Party, não há como voltar a fazer esse tipo de coisa, retomar aquelas idéias. Nem é possível. Para mim a evolução, o crescimento são partes do processo criativo. É o processo criativo...

O quanto de Nick Cave existe em Euchrid Eucrow, protagonista do seu romance And The Ass Saw The Angel?

Ele é um personagem fictício. De alguma maneira eu fui me tornando esse personagem... A experiência de escrever o livro foi extremamente intensa, fui me tornando o personagem... mas isso não quer dizer que o livro é autobiográfico.

And The Ass Saw The Angel poderia ter sido um disco?!

Sei o que você quer dizer... Eu escrevi o livro porque me pediram para escrevê-lo. Um editor me disse que eu deveria tentar, ficou insistindo... não sei se teria feito se não fosse assim. O livro trata de muitos assuntos dos assuntos presentes na minha música, mas vai mais longe, aprofunda muito mais as idéias. Sempre me senti limitado na hora de escrever as letras das minhas músicas. Gosto dos detalhes, de entrar nas brecas, por isso me senti muito bem na hora de criar um personagem, ao criar uma verdadeira visão de mundo com os olhos do outro.

Você lê a Bíblia com freqüência?

Sim. Tenho um grande fascínio pela Bíblia. Existe os fascínio literário... E é um período da história que me interessa.

Um artigo recente sobre você no semanário britânico Melody Maker...

Aquele lixo...

... dizia basicamente que a sua mitologia sobrevive por causa do cuidado, ou da frieza com que você trabalha alguns estereótipos...

Eu não acho que trabalhe com estereótipos! Eu não criei nenhuma imagem ou mitologia. Pouco me importa o que o público acha, espera ou quer de mim. O que a imprensa diz não me interessa minimamente, é problema deles. Tento manter meu senso de humor, mas no fim das contas é na minha vida que os bastardos estão se metendo. Se isso me incomoda? Incomoda, sim.

O que você tem ouvido ultimamente?

Ouço sem as mesmas coisas: blues, gospel... Não estou muito em contato com as novidades, principalmente com aquelas ditadas pelo hype, pela moda. Isso não me interessa.

Quais os planos para o futuro?

Tenho gasto boa parte do meu tempo olhando para a tela do computador, tentando escrever a primeira sentença de um novo livro. Está bem difícil começá-lo.

O que você vai adiantar desse livro?

Nada! Eu jamais cometeria o mesmo erro duas vezes. Só posso dizer que tenho a estrutura do livro, mas por enquanto nada veio para fora. Há muita pressão para que eu escreva esse livro, e eu acho que isso é até necessário. Às vezes é preciso que as pessoas me empurrem, me levem até a beira... escrever um livro é uma tarefa sagrada, solitária, necessita-se de muita auto-confiança. Preciso reunir forças, adquirir essa auto-confiança antes de começar a escrever. Sem querer ser dramático, escrever um livro é como entrar num túnel: você é engolido por tudo.

É possível detectar algum tipo de influência da cidade de São Paulo no seu trabalho?

Eu não sei. Quando você mora num país, numa cidade, não consegue evitar a absorção de certas coisas que estão ao seu redor. Eu não vim para cá por causa do meu amor por coisas brasileiras, música brasileira, por exemplo: não é por causa disso que estou aqui. Mas você acaba influenciado... As pessoas daqui me inspiram, o modo de ser, a maneira como conseguem encarar o inferno político, o inferno econômico em que vivem. Você tem que estar com os olhos tampados e ter algo no ouvido para não estar ligado no que acontece. O que é incrível no povo brasileiro, e eu sei que isso é um clichê, é que ele é capaz de sorrir, continuar sorrindo, na cara de tudo isso. E tudo bem se alguém disser que é uma espécie de fuga. Não importa. Eu fico com o valor do instante, fico com o momento em que o sorriso vem... sempre fui meio obcecado pelo Brasil, e nunca soube realmente por que.

Parece que você alguns problemas na produção de seu disco mais recente, Henry’s Dream.

Pela primeira vez trouxemos alguém de fora para produzir o disco. Esse cara chamado David Briggs, que produziu alguns dos melhores trabalhos do Neil Young... mas infelizmente conosco a coisa não funcionou. Ele tem sensibilidades muito americanas com relação às coisas, o que se mostrou problemático na hora de tratar com as nossas sensibilidades australianas, que são muito diferentes! Ele não parava de falar, ficava nos elogiando o tempo todo... no final simplesmente não sabíamos o que estava bom ou ruim. O que ele mixou ficou horrível. Ouvimos o disco na Austrália e achamos que estava um desastre. Remixamos tudo por nossa conta. Faltava garra. Não vamos trabalhar com ele novo, pode estar certo disso.

Foi você que escolheu o primeiro single, “Straight To You”?

Não, foi a gravadora. Na verdade são dois “lado A”: “Straight To You”, que é uma boa balada, uma triste canção de amor, e “Jack The Ripper”, que é extremamente violenta, agressiva, direta, puro blues. Eu queria que “Jack The Ripper” fosse o single, mas é claro que a gravadora preferiu a mais calminha.

O single serve para garantir o balanço dos extremos, amor e ódio, típico dos Bad Seeds...

Acho que estamos nos especializando nisso. Usamos a violência em tudo, temos uma maneira muito intensa de encarar o amor.

O Birthday Party, os Bad Seeds... Nick Cave de um modo geral tem bastante o tal respeito da crítica especializada. Que características da sua obra você acha que são mais destacadas, e corretamente, por esses críticos?

Acho que o que fizemos foi criar o nosso próprio nicho, algo único. Assim que alguém ouve identifica que somos nós. Não somos, nunca fomos influenciados por modas... um disco nosso pode até ser colocado na parada ou algo parecido, mas logo virá outro que vai conseguir evitar esse tipo de situação... De qualquer modo, não é isso que nos importa. O que queremos é fazer uma música incrivelmente alta e personalizada. Assim que você ouve, você sabe que Nick Cave está lá, e ele está cantando, cantando o que vê no mundo, cantando seus problemas.

Há alguma banda fazendo um som “parecido” com o seu?

Não. Não há nada parecido.

E o Gallon Drunk?

Eles tiveram azar. Eu ouvi a banda e gostei, e não porque eles “pareçam” Birthday Party... porque isso eles não são. É coisa da mídia. Uma vez que os jornalistas começam a aprisionar as bandas em rótulo, pronto: é o fim. Acho que o Gallon Drunk levou azar.

Por falar nesses rótulos, você chegou a escrever um artigo a respeito no New Musical Express...

Você leu aquilo?

... li e achei legal, mesmo que você tenha demolido algumas bandas prediletas como Danse Society...

O que destrói as bandas é o rótulo. O que importa é que existam bandas isoladas fazendo música, boa música, original. Dar uma etiqueta para uma banda pode ser útil, mas não vai durar. Você tem que expressar o que sente, não o que acha que deveria expressar.

Como vai seu novo livro?

Eu sabia que você ia perguntar isso. Ele ainda está lá em cima, no lugar onde todos os bons livros estão.

Essa é uma maneira de dizer que ele não existe, ou melhor, existe sem nenhuma linha escrita?!

Exata. No ano passado eu tirei férias, embora não soubesse bem disso. Na verdadem eu gravei um disco, Henry’s Dream, mas geralmente faço muito mais do que isso. Acabei não fazendo.

Dá para dizer que partes de Henry’s Dream saíram de cima desse livro?

Eu tenho minhas idéias, minhas obsessões... elas aparecem constantemente em meu trabalho. Como eu te disse uma vez, num livro eu levo essas idéias, essas obsessões muito mais longe, bem mais para dentro. Procuro alcançar seus extremos lógicos, infernais.

Livros, livros... Você diria que And The Ass Saw The Angel é um desses livros redentores, que representam a salvação para o autor?

Acho que sim. O livro foi escrito para mim mesmo, o que equivale a dizer que não é um livro para qualquer um. Fiquei completamente tomado pelo personagem, uma pessoa muda com uma visão muito particular do mundo. Se você conversar com as pessoas que estavam próximas a mim enquanto eu escrevia o livro, você vai descobrir que mudei radicalmente, como pessoa. Embora eu diga que o livro tenha sido escrito para mim, é bom deixar claro que não procurei criar voluntariamente nenhuma barreira de incompreensão, algo hermético que ninguém pudesse entender. No fim das contas trata-se de uma estória forte, uma novela com seu ápice e seu final. Não há nada de escrita automática, verborragia gratuita ou maneirismos vazios em geral.

Pode até virar best-seller...

Eu realmente não me importaria se o livro se tornasse best-seller. O livro vendeu bem, muita gente gostou. Eu diria que o único problema é que ele tem que ser lido em inglês, o inglês tem que ser a primeira língua do leitor, ou este tem que ter um bom domínio... Todos os grandes livros são difíceis, você tem que penetrar nas páginas, lutar com as idéias de quem escreveu.

Você tem uma média de leitura, mensal, semanal...?

Leio pelo menos três livros por semana. A idéia mesmo é fugir. Quando me sento com um livro, bloqueio qualquer interferência externa. Leio de tudo, de porcarias de aeroporto a coisas mais sérias. Tento balancear minhas leituras. Acabo de descobrir um autor chamado Patrick Hamilton, um inglês dos anos 40, muito instigante. Gosto muito do James Ellroy.

Já leu algo de literatura brasielira?

Estou lendo Capitães de Areia, do Jorge Amado, em inglês, há uns bons 2 anos. Tem sempre algo que me impede de terminá-lo.

A sua contribuição para I’m Your Fan, que é um tributo a um de seus ídolos, Leonard Cohen, é uma das melhores coisas do disco de longe. Sem dúvida, das mais “divertidas”. O que acha da idéia e do resultado?

Que bom que você falou que a contribuição é divertida... A minha versão é a melhor, não há dúvidas quanto a isso. A idéia inteira do disco era ruim. “Lenny” Cohen é um dos artistas mais incompreendidos e injustiçados que conheço. As pessoas tendem a achar que ele, que sua música são depressivos, o que é uma enorme bobagem. O problema com esse disco é que até os músicos, que deveriam saber um pouco mais, contribuíram para manter essa imagem equivocada. É ridículo. O disco inteiro é um bom exemplo de como interpretar Leonard Cohen de modo errado. A nossa versão é a que se salva, e salva o disco. É uma grande brincadeira, com o típico humor de Nick Cave.

Entrevista publicada no livro "Emissões Noturnas", de Fábio Massari, lançado pela editora Grinita Cultural


Blog EntrySep 1, '06 11:09 AM
for everyone

for a rainy day

kisses
we tried to save
pressed in books
like flowers from
a sun warmed day
only
years later to
open yellowing pages
to find those same
kisses - wilted and dry



Blog EntryAug 24, '06 9:25 AM
for everyone

Paraty 2006

Não me convidaram para essa festa pobre. Nem a mim nem ao Cazuza. Ele porque já foi pro beleléu,eu porque sou um falastrão,e devo representar alguma espécie de ameaça ao convívio de tão ilustres,sociais e educados escribas. O mundo das letras (digo a indústria,a máquina de fazer dinheiro) é colorido, e fofo.E pode - como uma propaganda do Unibanco - , ser irresponsável,e perigoso. Da mesma forma que inventa idílios em Paraty,ajambra periferias e escritores para propagandear qualquer lugar que lhe convém;desde esse insuspeito arraial literário até alcançar o Piauí, não,não é o Estado do qual Nelson Rodrigues duvidava da existência,trata-se da "Revista Piauí" - que será - dizem... - oportunamente lançada nessa simpática Paraty sem rede de esgoto. João Moreira Salles,além de editor da revista,cineasta premiado e mauricinho lírico incontestável, é dono do banco supracitado, e patrocinador da festa. Não conheço Joãozinho Salles,nem vi a revista. Só sei dizer que devo um dinheirão de juros pros bancos. Mas nem é preciso especular para saber que a qualidade gráfica da "Revista Piauí" deve ser Suiça. E os textos... milionários. Não,também não me convidaram para escrever na "Piauí". Estou aqui - é bom avisar - na condição de escritor profissional,ou, se preferirem, correspondente de guerra. Dava na mesma se me enviassem para a fronteira da Síria com o Líbano.Meu espírito é esse. Sempre foi, é bom que se diga. O legal da história é que passarei quatro dias enchendo a cara,e flanando por conta dessa festinha caipira , e - como não poderia deixar de ser - claro, ainda vou ganhar uns trocados.Bicão mas sem perder a elegância. Quem arrumou para mim esse Spa que inclui transporte,hospedagem, fuzis,e tudo na faixa, foi o Marcelino Freire. Paraty - para mim - começou ontem à noite na Mercearia São Pedro. Um lugar em São Paulo, na Vila Madalena (para o leitor desavisado do Zero Hora) onde se faz negócios,conchavos, sexo no banheiro, fala-se bem dos amigos e mal dos inimigos e na maioria dos casos purga-se a falta de talento enchendo-se a cara até o dia amanhecer.Às vezes os autores da casa publicam antologias. Às vezes quebram o bar. Nada demais. A diferença pros outros butecos é o sanduíche de carne assada e a simpatia de Marquinhos,dono do buteco.O primeiro ítem é meio caro mas justifica o
segundo;ou seja,o sorriso impagável de Marquinhos, atrás do balcão. De uns tempos pra cá,o "agitador" Marcelino Freire anda - merecidamente... - festejado no meio literário,e desfruta de camarote na Mercearia São Pedro. Foi lá que apiedou-se desse escriba nada modesto, e resolveu mandá-lo para Paraty antes de ser solicitado no sentido de arrumar-lhe um emprego,dinheiro emprestado,favores sexuais e/ou algo mais sórdido do tipo...um Jabuti. Na verdade,iria lhe pedir as horas.Só isso. Ele que insistiu na garrafa de "Periquita". Fazer o quê? 
Agora estou aqui nessa cidadezinha de merda,cercado por chiliques nacionais e internacionais,pela paisagem sonífera que encantou Debret,e pedras a judiar dos meus ligamentos;ladeado por escritores "engajados"... (me pergunto: "engajados no quê? Na chatice?") e - evidentemente - atrás de uma maria-rodapé pra comer acompanhada com feijão grosso e costelinha de porco. Fiquei sabendo que não me convidaram para essa festa porque,entre uma maria-rodapé comida no
almoço e um porre de cachaça seguido dos vexames de praxe, eu poderia falar ao vivo e a cores as mesmas
coisas desagradáveis que estou escrevendo aqui e agora: de frente para o mar e para a bandeja de
queijadinhas. Tolos. Quanto ao homenageado dessa edição,acertaram na mosca. Jorge Amado, esse xarope filhinho de papai Stálin,é o autor perfeito para se prestar homenagens; perfeito em vida e mais perfeito depois de morto. Existem autores com essa vocação. A outra categoria são os que fazem literatura pra valer.Esses dispensam homenagens. Melhor mesmo lê-los. Uma dica. Leiam "O Sobrinho de Wittgenstein",de Thomas Bernhardt. Nada a ver com esse ar civilizado de Paraty, nada,nadinha a ver com
barquinhos ancorados defronte cafezinhos metidos a besta. Talvez "Árvores Abatidas" do mesmo Bernhardt tenha mais afinidade com a atmosfera de falcatrua dessa Paraty.Ora,leiam toda a obra de Bernhardt, e concordarão comigo. Penso mesmo que Jorge Amado,o "baiano profundo", não tem cacife
sequer para ser a micose de unha de um Juliano Garcia Pessanha,que - a propósito - é admirador número um da obra de Bernhardt .Menos mal que esse ano tenham convidado Pessanha. A palestra dele foi a melhor coisa que podia ter acontecido nessas plagas.Para quem não o conhece,J.P,além de ganhar a vida ensinando Blanchot e Cioran para as madames de Higienópolis, é autor de um livro fundamental chamado "Certeza do Agora". A vida é simples.Os livros do Juliano esgotados.

 Um esclarecimento: Maria-rodapé não é um quitute que a mãe de Thomas Mann preparava quando sentia nostalgia de Veneza, mas sim um avanço tecnológico das antigas groupies dos tempos áureos do Rock and Roll. São garotas que,em suma, dão pros caras porque eles aparecem nos jornais,ou tem uma bandinha,ou,sei lá,usam camisetas pretas,ou nesse caso específico, frequentam jornais,antologias e revistas especializadas do circuito Vila Madalena-Paraty.Ou seja,tipos descolados que assobiam,chupam e entornam uma cana ao mesmo tempo,e não necessariamente escrevem coisas que valham a pena ser lidas. Isso é um detalhe,concorda dona Zélia?
Outro detalhe é o nao-cachê dos escribas brasileiros. Nossos ilustres figurantes comparecerão por conta da militância.Isto é,ou acreditam nas causas do Unibanco,da TIM ou nas causas do marqueting próprio.Que o diga Gabriel Chalita - o ex-secretário da Educação do Estado de São Paulo - que,embora não tenha sido convidado oficialmente pela Flip,encarna o que os místicos chamariam de "espírito" da coisa. Chalita lançará (é o que diz o site dele) o livro de poesias chamado "Estações" aqui em Paraty. Um mimo esse rapaz. Os escritores gringos, na certa,além dos dólares (ou alguém pensa que um Christopher Hitchens da vida viaja de graça?),levarão cocares,mulatas,belos suvenires de nossa amada pátria,e lembranças dos tempos em que a colonização era somente um pretexto para arrancar nossas alminhas caipiras do respectivos couros.Depois de 500 anos,esgarçadas as alminhas,os gringos não precisam sequer de pretextos. Ninguém aqui tem coisa diferente de tubérculos no lugar do caráter,esses gringos tem mais é que se esbaldar.Viramos mandiocas. Bela festa,ainda bem que não fui convidado. Na mesa em que eu participaria - sim,meu nome foi malandramente limado pela organização do Festival - puseram um cara meio deprimido e engraçado a falar de quadrinhos,remédios e literatura.Boa performance. Claro que fiquei contrariado.E,antes que me acusem de gordinho recalcado,me antecipo.Sou recalcado porém emagreci. Esse texto tem,portanto,endereço e gênese ululantes: produto da minha pequenez e arrogância.Apesar disso, Reinaldo Moraes desembestou a tagarelar,e salvou o encontro. Felizmente dona Zélia Gattai não
compareceu. Tropeçou no próprio autismo,e se machucou. Estou livre do casamento perfeito,dos causos e da lenga-lenga imortal dessa senhora. Ricardo Piglia também não veio. No seu lugar,chamaram José Miguel Wisnik. Quero estar bem longe na hora em que o professor da USP disser que o Caetano é um gênio.A velha lenga-lenga. Ah,Paraty.Ah,meu saco. Também não tenho nenhuma curiosidade em assistir
a palestra de estrelas do jornalismo americano.Isso aqui não é uma festa "literária"? Não tenho nenhum interesse por apêndices ou restolhos de gênio "A" ou gênio "B". Será que a leitura da obra dos caras não é o suficiente? A mim me bastam minhas gambiarras e vaidade.Não estou nem aí com os "perfis" e eventuais
entrevistas,excêntricidades e lapis apontados por fulaninho genial. Nem aqui,nem alhures.Se esses jornalistas misturam gêneros,talvez por timidez, ou algum tipo de ambicão risco-zero,eu criei um
estilo. Igualmente não faço diferença entre o velho e o mar,o melhor amigo, ou o barbeiro de Hemingway.Em tempo: também não acredito em biografias e na publicação de cartas de autores defuntos,acho isso de um oportunismo tosco,uma falta de delicadeza.Sobretudo não creio em "recriação". Mas creio em vampiros! Lilliam Ross,a famosa editora da New Yorker,está evidentemente puxando a sardinha para o lado dela. Independente do charme e do talento dessa senhora e de seus assemelhados,eles,a meu ver, jamais passarão de coadjuvantes. No máximo - e com muita boa vontade - eu diria que são fofoqueiros chiques. Bobagem da senhora Ross afirmar que o "romance-reportagem"
remonta a uma tradição que vem de Daniel Defoe.Um livro - independente do gênero - se for bom,não
precisa de alvarás para existir. Tanto faz se o autor é cozinheiro,alpinista, caixa de supermercado,ou um
jornalista pararicado por seus iguais. Esse argumento é fajuto e facilmente contestado pelo simples fato de que na época em que Daniel Dafoe escreveu "Diário do Ano da Peste" ele,antes de ser comerciante,dono de jornal ou qualquer outra coisa,era um ESCRITOR, e o "Novo Jornalismo" era uma balela a ser inventada muitas décadas depois para dar um verniz a jornalistas bem-sucedidos metidos a estrelas de festa de pobre. Minha arrogância e vaidade não são nada perto da timidez ambiciosa dessa gente. Tenho que ser grosso e bater forte nesse caso. Isso aqui,caro leitor, é um serviço de utilidade pública.Um aviso para garotões sarados da nossa imprensa não se meterem a besta.Talvez não tenha utilidade alguma.Quem sou eu? Se um Daniel Piza da vida cismar que reinventou Machado de Assis,ninguém - nem a justiça que
livrou a barra de Pimenta Neves - irá segurá-lo. Quem avisa amigo é. A única coisa animada nessa cidade é a arquitetura brega de um Supermercado que destoa da monotonia da paisagem e das vendinhas furrecas que o cercam. Devia chamar Supermercado Companhia das Letras (leia-se Unibanco).Seria a única coisa honesta que eventualmente poderia acontecer nesse lugar .João Ubaldo Ribeiro entendeu o safári que era isso aqui,e declinou do convite.Ou ainda. O vaivém de artístas e gente metida a artista para cima e para baixo é uma invenção dessa editora-agência bancária para promover seus autores, e futuros    devedores.Nada mais do que isso. Foi assim até a segunda ou terceira edição. O negócio cresceu,a mídia mordeu a isca,e já estava dando muito na cara. Não podia ficar desse jeito. Aí convidaram uma enxurrada de pangarés de outras editoras,rappers,caetanos,chicos e tipos afins metidos a escritores para animar a festa. Até o Gugu Liberato,na segunda ou terceira edicão, apareceu por aqui. Dos "artístas",a meu ver, o
animador de auditório foi o mais autêntico.Uma vez que não teve de representar nada diferente do que
efetivamente faz e do que realmente é.Um palhaço sem talento no picadeiro de um riquíssimo cirquinho de
horrores. Paraty,2006.

                            

 Marcelo Mirisola

 (artigo recusado pelo jornal "Zero Hora")


Blog EntryJul 18, '06 2:09 PM
for everyone
À espera da peneira do tempo
Por José Castello
12/05/2006

Quatro lançamentos ajudam a entrever alguns rumos para a literatura brasileira no século XXI. Projetos prudentes, gerados mais pela cautela - como quando se caminha no escuro - do que pela aposta firme em uma voz pessoal. Entre as quatro novidades, há, na verdade, uma interessante exceção: "Não Feches seus Olhos esta Noite" (Rocco), o enigmático e imprudente livro de estréia da poeta gaúcha Maira Parula, que, a meio caminho entre a poesia e a prosa, revolve, com ímpeto, o mal-estar contemporâneo.
Pio Figueiroa/Valor
O escritor amazonense Milton Hatoum, um dos nomes da linha de frente da literatura brasileira contemporânea, é autor de "Relato de um Certo Oriente"


Aos 52 anos, Maira não é uma poeta inexperiente. Há muito tempo seus textos circulam em revistas literárias e em blogs. Se seu livro não chega a apontar com clareza uma direção, deixa, ainda assim, cara a cara com a impotência, ou pelo menos a insuficiência, a que a palavra, hoje, parece condenada. É um livro forte, ainda que opaco. Um livro de transição, escrito quando ainda não se pode prever o futuro.

Os outros três lançamentos, "Mãos de Cavalo", de Daniel Galera; "O Paraíso É bem Bacana", de André Sant'Anna, e "Contos de Pedro", de Rubens Figueiredo, todos pela Companhia das Letras, livros maduros, projetam, com mais nitidez, a imagem de um futuro conservador. Não se pode negar a firmeza, a limpidez com que narram suas histórias. Ainda assim, os três se apegam às memórias simuladas, aos rumores da juventude e, sobretudo, a uma visão cautelosa do ofício literário. Dão a impressão, incômoda, de que se pautam mais pela idéia de não falhar do que pela idéia de avançar.

Que futuro anunciam? Galera, aos 26 anos de idade; Sant'Anna, aos 41, e Figueiredo, aos 50, filhos de três gerações distintas, já são conhecidos dos leitores mais atentos. O caçula Galera apareceu nas páginas da internet e nas confissões prolixas (e mentirosas) dos blogs. Pertence a um grupo que retoma, por vias oblíquas, a influência beat, a literatura aventureira e, ainda, o fervor no cotidiano, tal qual nos anos 70. Seu romance, "Mãos de Cavalo", se faz por estilhaços, fiando histórias que se prendem com delicadeza e que tocam em sentimentos simples, como a culpa e a reparação.
Montagem Valor
Silviano Santiago, João Gilberto Noll, Patrícia Melo, Luiz Ruffato e Sérgio Sant'Anna, nomes sempre lembrados da literatura brasileira contemporânea, uma escola que se divide em inúmeras subescolas, com autores ligados à narrativa tradicional ou mais experimentais


Com "O Paraíso É bem Bacana", André Sant'Anna também persegue o mundo das coisas não especiais. Só que, mais crítico do que Galera, nele trata de fisgar aquilo que torna comum um mundo comum - os clichês, os comportamentos previsíveis, os tiques psicológicos, as máscaras. Conta a história de Mané, que, confinado em um leito de hospital em Berlim, enche seu vazio com delírios sensuais e enxurradas de recordações. A matéria de Sant'Anna é, como sempre, a banalidade, a pobreza de espírito, a repetição, o atoleiro. Ele faz uma literatura que opta, radicalmente, pela superfície, disposta a esgotar - ou mesmo exorcizar - as mordaças mentais que nos limitam.

Mais refinado, e com mais equilíbrio, o mais velho deles, Rubens Figueiredo, pratica uma literatura que tende à contenção e ao refreamento. Seu "Contos de Pedro" traz uma série de histórias vividas por uma série de Pedros, que, por vias distintas, cavam seu lugar no mundo. Figueiredo investe na tendência antiga ao retrato interior, que, provavelmente, espelho nobre, já não sustenta o mundo estilhaçado de hoje. Sua busca esbarra, quase sempre, nos limites de sua maneira de buscar - como um pintor que, desejando retratar um outro, terminasse por pintar sempre a si. Nem a leveza, ainda que juvenil, de "Mãos de Cavalo", nem a mordacidade de "O Paraíso É bem Bacana", menos ainda o atordoamento de "Não Feche seus Olhos esta Noite"; a literatura vista como um ofício persistente e meticuloso, a ser praticado com afinco e discrição.

Já o livro de Maira Parula é mais tenso, e mais insatisfeito com as chances da literatura. Não que resolva alguma coisa, não que consiga, de fato, perfurar a grande zoeira, o uníssono infernal que imobiliza nosso presente. Mas, se falha, esgarça seus limites, dá a ver o quanto a palavra anda (mesmo na literatura) fraquejando. Maira não se contenta em praticar um só gênero, daí a dificuldade para classificar o que faz. Poesia? Romance? Prosa poética? Confissão disfarçada de ficção? Seja o que for, seu livro circula pelas fronteiras possíveis do literário, e com isso fustiga nossa imensa dificuldade, hoje, para nomear as coisas. É uma literatura de dúvida e de inquirição. Em vez de se fixar em nosso horroroso mundo de rótulos e clones, como faz André Sant'Anna, sua narradora - que transita por nomes e sexos, e que talvez nem seja uma pessoa só - patina sobre o grande vazio, a grande opacidade do novo século. Lemos, lemos, e quanto mais avançamos, menos sabemos o que lemos.

São quatro possibilidades - o mapeamento sereno, a repetição brutal, a introspecção cautelosa e o atordoamento -, quatro tentativas de fazer a literatura avançar. Mas que literatura é esta? É muito perigoso esboçar painéis para uma paisagem em que, a rigor, domina a indefinição. Pode-se rascunhar tendências, arriscar o alinhamento de alguns escritores a certas forças sempre imprecisas, e não muito mais. E, ainda assim, sabendo que esse esforço, no fim, será só uma maneira de oferecer um ponto de partida, uma base frágil a partir da qual as leituras, sempre livres e surpreendentes, devem se fazer.
Eduardo Marques/Folha Imagem
Marcelo Mirisola, autor de "O Herói Devolvido" e "O Azul do Filho Morto", pratica uma literatura mais visceral, que não se importa muito com o "bem escrever"


Narradores brasileiros

O Brasil tem, nesta virada de século, um estupendo elenco de narradores. Cristóvão Tezza, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Sérgio Sant'Anna, Raimundo Carrero, Milton Hatoum, Chico Buarque, Fernando Monteiro, Ana Miranda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Raduan Nassar, escritores fortes e que têm o que dizer. Isso sem falar dos mais experientes, como Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Luiz Vilela, Lya Luft, Carlos Heitor Cony, Nelida Piñon, de cujo horizonte, seja como for, não se pode fugir. O país se narra com diversidade e vigor. Mas que narrativa está por vir?

A eles se segue uma geração mais jovem, mas já madura, em que se destacam ficcionistas densos como Marcelo Mirisola, Bernardo Ajzenberg, Luiz Ruffato, Bernardo Carvalho e Amílcar Bettega Barbosa, nomes surgidos em torno dos anos 90 e que se oferecem agora como pistas seguras para esboçar o novo século. O próprio Rubens Figueiredo, na verdade, deve ser escalado neste grupo. Escritores que se tornam catalisadores de novas tendências, estimulando talentos e dinamizando caminhos.

Os neonaturalistas

Na direção que apontam, o que é possível vislumbrar? O novo século brasileiro começou, na prosa, com um retorno ao realismo e, em especial, a um novo naturalismo - a velha tradição, reformada com novo olhar. Discípulos de José Rubem Fonseca, e de sua discípula favorita, Patrícia Melo, esses escritores "de televisão", como são chamados às vezes, praticam uma literatura que rivaliza com o cinema, com os roteiros audiovisuais e o mundo frenético das imagens. Ela se apóia na estética cinematográfica, na internet e na fotografia, como se para a palavra já não houvesse outro destino senão a imagem. Aqui despontam nomes já consagrados, como Marçal Aquino, Tony Belloto, José Roberto Torero, Cláudio Galperin e Ronaldo Bressane. Narradores de nosso frenético mundo urbano e de suas turbulências, que escrevem com uma idéia na cabeça e uma câmera nas mãos.

Os new beats

À distância, um segundo grupo, em geral formado nos blogs da internet, mistura uma linguagem veloz e informal, própria dos meios eletrônicos, com uma influência forte da literatura pop dos anos 70, das narrativas dos aventureiros de estrada, como Borroughs e Ginsburg, e, no Brasil, das caminhadas sem rumo dos poetas marginais, como Ana Cristina César, Chacal e Charles, sem falar em um escritor como José Agrippino de Paula. Eles promovem, assim, uma volta ao coloquial e à vida solar, e apostam em temas mais brutos e antiliterários. São, de alguma forma, herdeiros tardios dos beats americanos, remodelados pela experiência (e pelas viagens imóveis) por meio da web. Destacam-se nomes como Clarah Averbuck, Daniel Pellizzari, Ivana Arruda Leite, Marcelino Freire, Ademir Assunção, Jorge Cardoso, Paulo Bullar, Marcelo Benvenutti e, o mais talentoso deles, Joca Reiners Terron, autor do inquietante "Não Existe nada lá". Tendência ao imediato e até ao selvagem, que, com mais despudor, ressurge no livro de Maira Parula.

Os experimentais

Há, ainda, uma geração de narradores intelectualistas, com projetos mais fechados e ambiciosos (o que não é o mesmo que dizer audaciosos). Escritores que escrevem sob a tutela mental de leituras acadêmicas, avaliações críticas e citações. Sua figura mais forte e inconfundível é o premiado Bernardo Carvalho. É nessa linha, ainda que com mais contenção, que transita também Rubens Figueiredo, com seu intelectualismo mais simples, temperado em certo realismo. E ainda o também ensaísta Nelson de Oliveira. Não é uma direção fácil, e por isso é trilhada por poucos. Entre os mais bem sucedidos está Amílcar Bettega Barbosa, premiado no ano passado com o Portugal Telecom, que escreve sob a indisfarçável - mas inspiradora - sombra fantástica do argentino Júlio Cortázar. Outro nome de destaque é Marcelo Mirisola, mais visceral, mais tenso ainda que Bettega, mais agressivo e até indiferente ao "bem escrever". Ele pratica uma literatura limítrofe, pouco atenta tanto ao bom gosto quanto ao brilho intelectual.

Os solitários

Existem escritores mais solitários, que transitam em vias isoladas, como Michel Laub, autor de "Longe da Água", e Rodrigo Lacerda, o autor de "Vista do Rio". Laub se aproxima de um Rubens Figueiredo por seu interesse pelos afetos do cotidiano; mas dele se afasta por seu lirismo mais forte e menos temeroso. Lacerda também faz uma literatura sensível, que não se deixa atordoar por modismos, ou pelas pressões de grupo. A eles se juntam o gaúcho Altair Martins, autor de uma obra pouco conhecida, mas promissora, e também autores firmes como Arnaldo Bloch e João Paulo Cuenca. Em sua solidão, eles encarnam, na verdade, o sintoma maior de uma época, na qual, em meio à zoeira infernal, o melhor é acreditar apenas em si.

Os novos intimistas

Persiste, como sempre, agora modernizada pelas modas do novo século, uma linha mais delicada e sentimental que o preconceito, em geral, aprisiona no estereótipo da "literatura feminina". Ela se manifesta, de qualquer forma, mas não apenas, na literatura de algumas mulheres. A estrela dessa tendência é Fernanda Young, que se destaca pela maneira feroz com que trabalha o romantismo. Mas Cíntia Moscovich, Lívia Garcia Rosa, Beatriz Bracher, Heloisa Seixas e Nilza Rezende têm projetos literários mais sólidos. No entanto, o que as une realmente, além do gênero feminino?

Baralhando as cartas, outros padrões poderiam ser usados para alinhar escritores antes dispersos. Por exemplo, uma certa agressividade - que o romancista e ensaísta Nelson de Oliveira atribui à alma transgressora - percorre autores que são, na verdade, muito diferentes entre si, como Ivana de Arruda Leite, André Sant'Anna, Joca Reiners Terron e Marcelo Mirisola. Mas isso basta para enfurná-los em uma mesma cela? Não basta. Em uma época de prolixidade, quando as editoras lançam toneladas de livros e autores a cada mês, é preciso mais cautela e mais pudor.

Os revisionistas

A paisagem se torna ainda mais fosca, e confusa, na poesia, na qual a herança automática das gerações vanguardistas resiste como uma doença crônica. Há uma evidente religiosidade nessa relação com as décadas de 50 e 60, uma reverência de discípulos para mestres que dificulta qualquer salto à frente. Apesar disso, temos poetas que exercitam um retorno ao lirismo e ao verso mais longo, com o conseqüente afastamento das experiências formalistas. Poetas vigorosos, e igualmente lúcidos, como Eucanaã Ferraz, Fabrício Carpinejar, Jussara Salazar e Lucinda Persona. Importantes poetas de gerações anteriores, como Paulo Henriques Britto e Nelson Ascher, estupendos poetas, podem ser vistos como os poetas do futuro, já que seus livros comandam essa desmontagem do formalismo.

Os pós-concretos

Predomina, ainda assim, uma prolixa e barulhenta geração pós-concreta - de poetas que se mantêm fiéis à herança intelectual do concretismo, de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos. Entre eles, estão nomes como Cláudio Daniel, Rodrigo Garcia Lopes, Cláudia Roquette Pinto, Ademir Assunção e Frederico Barbosa, escritores de voz e talento distintos, mas que, ainda assim, leitores sofríveis de João Cabral, igualam-se numa mesma postura construtivista e intelectualista. Suas referências, além da poesia concreta e das citações de Cabral e do primeiro Drummond, são o poeta paranaense Paulo Leminski - ele próprio um simpatizante declarado do concretismo -, Affonso Ávila e Torquato Neto , além de experiências como o tropicalismo e o que se costuma chamar de "neobarroco". Eles se vêem, em geral, como praticantes de uma "poesia de invenção", que inclui ainda nomes como Arnaldo Antunes, Jocely Vianna Baptista e Carlito Azevedo, e que se define pela ênfase nas pesquisas de linguagem.

Como efeito nefasto, prolifera, a partir dessa postura congelada, uma grande onda de poesia escolar, "de tese", mais para satisfazer o mestre que para atingir o leitor. Poesia que se dissemina nas revistas literárias e nas páginas da internet, e que, militante e sitiada em grupos fechados (para não dizer "armados"), impõe, mais por esforço do que por talento, seu trabalho. Esta postura influencia de volta, também, e infelizmente, a prosa - contando ainda com a sombra direta de alguns escritores hispano-americanos, como José Kozer, Néstor Perlongher e, sobretudo, os cubanos Lezama Lima e Severo Sarduy.

Esse estado de pulverização, que por fim é a marca da transição, não só entre dois séculos, mas entre duas maneiras de encarar a literatura, leva os escritores, prosadores ou poetas a tatearem em busca de caminhos, formando um acervo de riquezas, em particular, de liberdade, no qual todos os estilos, todas as buscas, no fim das contas, se legitimam. Resta, enfim, uma grande serenidade: o que não for bom desaparece; o que for, se perpetua. É esperar.
 
 

Blog EntryMar 14, '06 6:04 PM
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Drogas, Alucinações e a Busca pela Realidade

Philip K. K Dick (1964)

(Publicado originalmente em Lighthouse nº 11, novembro de 1964.
Republicado em Lawrence Sutin, ed.
The Shifting Realities of Philip K. Dick.
Tradução: Lúcio Manfredi.)

Um distante e inocente dia, em minha juventude anterior à loucura, eu deparei com um relatório em um indistinto manual de psiquiatria que, da mesma forma que quando Kant leu Hume, despertou-me para sempre de meu sono paradisíaco. "O psicótico não apenas acha que vê quatro bivalves azuis com asas moles voando pela sala; ele realmente as vê. Uma alucinação não é, estritamente falando, fabricada no cérebro; ela é recebida pelo cérebro, como qualquer dado sensorial «real» e o paciente age em resposta a essa para-ele-real percepção da realidade de um modo tão lógico quanto nós agimos com os dados de nossos sentidos. De qualquer modo, supor que ele apenas «acha que vê» é entender de modo totalmente errôneo a experiência da psicose."

Bem, eu pensei nisso através desses anos sombrios, enquanto a indústria da droga, psiquiatras e algumas pessoas vazias de reputação duvidosa faziam muito para validar - e além disso explorar - esse tópico, de modo que agora nós estamos diante de um estabelecimento psiquiátrico minimamente relacionado com os bons e simples dias de antes (por volta de 1900), quando os pacientes mentais caíam em uma de duas categorias rígidas: os insanos, o que significa simplesmente que eles eram muito doentes para viver em sociedade, para lavar e encerar seus carros, pagar seus impostos, beber um martini e ainda manter uma conversa agradável, e conseqüentemente tinham que ser internados... e os neuróticos, os quais incluíam todos os que eram sábios o bastante para recorrer à ajuda psiquiátrica, seja devido a queixas simplesmente «histéricas», tais como sentir uma compulsão para desamarrar os sapatos de todo mundo ou contar o número de garotinhos de triciclos passando diante de suas casas ou escritórios, seja devido a desordens «neuróticas»que se resumiam em uma ansiedade desproporcional à «situação real», particularmente fobias especializadas como o mórbido e incompreensível pânico de que um foguete espacial descontrolado que deveria aterrisar no Atlântico possa, em vez disso, atingir seu ponto morto no pátio um domingo à tarde, enquanto a pessoa em questão está montando a churrasqueira para fritar uns hambúrgueres. Nenhuma relação real foi encontrada entre os "insanos" que estavam - ou deveriam estar - nas instituições e as pessoas "neuróticas" ou "histéricas" que vinham uma vez por semana para uma hora de livre-associação; de fato, a crença de que a doença do insano (ou, como diríamos agora, o psicótico) tem sua origem numa causa física, em vez de psicogênica, enquanto o neurótico sente medos não naturais por causa de eventos traumáticos em sua primeira infância foi estabelecida com a descoberta inicial de Freud, criando uma base para o diagnóstico sobre a qual o médico poderia decidir em qual grupo o doente cairia. Se ele se mostrasse psicótico, então a psicologia profunda, a psicanálise, não era para ele - se fosse um neurótico, tudo o que precisaria era trazer à luz do dia o material sexual há muito esquecido e reprimido no subconsciente... e então as fobias e compulsões desapareceriam.

Parecia uma boa coisa, até Jung vir e provar:

1. Que psicóticos hospitalizados respondiam à psicoterapia tão rápido quanto os neuróticos; desde que a linguagem particular dos psicóticos fosse compreendida, a comunicação se estabelecia. E

2. Muitos neuróticos ambulatórios, que possuíam empregos, tinham constituído família e escovavam os dentes regularmente não eram o que ele designou como "neuróticos introvertidos", mas verdadeiramente psicóticos - especificamente esquizofrênicos - no estágio inicial de um longo período de doença. E eles não respondiam tão bem à psicanálise quanto todos os outros.

Isso quer dizer alguma coisa. (A) Talvez toda doença mental, não importa quão grave, possa ser psicogênica na origem. (B) Uma neurose poderia não ser absolutamente uma doença ou um sintoma de doença, mas uma construção do cérebro para alcançar a estase e evitar um colapso mais sério; assim, poderia ser arriscado remendar a neurose de alguém porque sob ela poderia jazer uma psicose plenamente desenvolvida - a qual poderia emergir no momento em que o feliz psiquiatra senta-se e diz: "Viu? Você não precisa mais ter medo dos ônibus." Com o que o paciente descobre que agora ele tem medo de tudo, inclusive da própria vida. E pode não conseguir mais viver daí para a frente.

Assim, afasta-se todo o grande esquema de coisas, o subconsciente, os traumas sexuais reprimidos na infância - como um mapa medieval da terra plana, ele não se referia a nada e talvez fosse até prejudicial para o que nós hoje designamos como "psicóticos limítrofes", o que é uma maneira de dizer "esses que não poderiam viver em sociedade mas vivem - eu acho". Quão nebuloso um assunto pode se tornar? Uma a uma, todas as teorias vieram abaixo; havia psicóticos "racionais", os quais à nossa cômica maneira chamamos de "paranóicos", e eles eram racionais - mas não o bastante. Porque agora nós estamos no que eu considero o ponto crucial: a presença no psicótico não só de ilusões ("Eles estão conspirando contra mim", etc.) mas tambem de alucinações, que os neuróticos não têm. Então, talvez dessa perspectiva nós tenhamos uma base diagnóstica, se não para a natureza da doença, pelo menos para sua gravidade. Mas aqui surge um item enervante. Existe algo como uma alucinação negativa - em vez de ver o que não está lá, o paciente não consegue ver o que está. (Jung deu, creio, o mais extraordinário exemplo disso: um paciente que via as pessoas sem cabeça - ele só as via até o pescoço, mais nada.) Mas o que é mais assustador é que esse paciente não era psicótico; com certeza, ele era apenas histérico - como qualquer hipnotizador principiante poderia atestar, uma vez que esse tipo de percepção defeituosa pode ser induzido em diversas pessoas sadias... bem como um bom número de outras, inclusive aquela que, quando ocorre sem a influência do hipnotizador, é considerada o sine qua non da psicose, a alucinação positiva.

Agora nós estamos chegando a algum lugar, e é um lugar assustador. Porque nós entramos na paisagem retratada por Richard Condon em seu aterrorizante romance The Mandchurian Candidate. Não só ilusões e alucinações podem ser induzidas em virtualmente qualquer pessoa como o horror adicional da "sugestão pós-hipnótica" continua nela por um bom tempo... e tudo isso pode ser claramente posto a serviço de objetivos políticos pelo Instituto Pavlov. Eu não acho que esteja devaneando aqui porque, lembrem-se: Freud esteve originalmente envolvido em uma forma de psicoterapia que utilizava a hipnose como principal ferramenta. Em outras palavras, toda a moderna psicologia profunda - a qual postula alguma região da mente fora do alcance do eu consciente da pessoa e que pode, em mais de uma ocasião, suplantar o eu - desenvolveu-se a partir da observação de indivíduos agindo com plenas convicções, percepções e motivações implantadas por "sugestão" durante o estado hipnótico. Sugestão? Quão fraca é uma palavra, como ela transmite pouco em comparação com a própria experiência. (Eu passei por isso e foi, sem dúvida, a coisa mais extraordinária que já me aconteceu.) O que o corpo de "sugestões" acrescenta ao sujeito hipnotizado é nada menos que uma nova visão do mundo, superposta à visão habitual do sujeito; não existe limite para a extensão dessa nova visão induzida ou da gestalt de percepções e idéias organizadoras no interior do processo mental do cérebro - não há limite para sua extensão, duração ou seu afastamento do que curiosamente chamamos de "realidade". E - isso é simplesmente impossível do ponto de vista lógico, mas acontece - o sujeito pode ser fisicamente alterado, em relação ao que está apto ou não a fazer; ele pode ficar rigidamente deitado entre duas cadeiras e permanecer assim, de modo que até sua parte somática é nova... algumas vezes a ponto de contradizer o que nós sabemos ser anatomicamente possível com relação ao sistema circulatório, etc. (e. g., mantendo seu braço estendido por um tempo considerável); o limite de tempo é imposto por fatores puramente fisiológicos, e simplesmente não há uma explicação psicogênica para esse fenômeno, a menos que queiramos postular a ioga ou a psiônica ou - vamos encarar - poderes mágicos. Mas de quem são esses poderes? Do paciente? Do hipnotizador? De qualquer forma, isso não faz sentido, a menos que restauremos as noções do século dezessete sobre feiticeiros e vítimas de feitiçaria... e onde é que isso nos leva? Eu duvido que até mesmo John W. Campbell Jr. ia querer se aventurar nessa trilha.

Contudo, talvez nós possamos construir algo compreensível a partir disso se lembrarmos que estão começando a surgir comprovações a favor de percepções - e habilidades - extrasensoriais. Existe uma relação; já em 1900, o próprio Freud notou uma evidência palpável, durante a livre-associação de seus pacientes, de habilidade telepática. (Eu realmente odiei ter aprendido isso, depois de ter zombado da PES durante anos; mas somente a documentação de Freud - e ele era um observador incrivelmente cuidadoso - tende a fortalecer a questão da PES.) E recentemente, em publicações psiquiátricas absolutamente respeitáveis, psiquiatras treinados nos informaram de que percepções telepáticas ocorrem em seus pacientes com freqüência suficiente para estar fora de questão. Ehrenwald, publicado por W. W. Norton, o que é digno de respeito, com um prefácio de Gardner Murphy, chega a construir uma teoria completa da doença mental baseada em observações de primeira mão de numerosos pacientes perturbados que experimentaram vínculos telepáticos involuntários; os paranóicos, por exemplo, recebem como informações sensoriais os reprimidos, marginais e não-ditos pensamentos e sentimentos hostis dos que estão ao redor dele; ele afirma que, vez após vez, enquanto passava pelas alas do hospital, pacientes paranóicos citaram-lhe palavra por palavra pensamentos hostis que ele estava entretendo sobre eles - e, é claro, ocultando tais pensamentos, como nós todos fazemos, de modo a manter nossas relações interpessoais funcionando. Então, agora, do meu jeito prolixo e indireto, eu dei minha Grande Tacada. Tomando as alegações de Ehrenwald por seu valor aparente (isto é, aceitando que elas são verdadeiras e usando-as como postulado), deparamos com a clara e evidente possibilidade de que, ao menos no caso dos paranóicos - ou, de qualquer forma, de alguns paranóicos - as "ilusões" não são de modo algum ilusões mas, pelo contrário, percepções acuradas  de uma área da realidade que o resto de nós não consegue (louvado seja o Senhor) alcançar. Pois bem, agora vamos voltar e examinar toda a questão da doença mental, alucinações tanto negativas quanto positivas, a experiência hipnótica, distorções sensoriais pseudo-esquizofrênicas provocadas por substâncias químicas como o LSD e toxinas orgânicas tais como as encontradas em alguns cogumelos, etc. e, para ter certeza absoluta de que estou fazendo a mim mesmo de tolo, vou acrescentar o misticismo, os eventos místicos denominados "conversões", tais como a que aconteceu com São Paulo. Prontos? Okay.

Uma pessoa pode ser psicótica sem alucinar? Pode. Os paranóicos têm apenas "idéias ilusórias"; eles vêem a mesma realidade que nós, mas a interpretam de modo diferente, dentro de seu sistema.

Uma pessoa pode alucinar sem ser psicótica? Pode, por exemplo durante o estado hipnótico, sob drogas, quando está com febre alta, intoxicado - por muitas razões.

Qual é a relação entre alucinação e visão do mundo? O conceito adotado pela psicologia alemã (mais especificamente a suíça) é de que cada indivíduo tem uma maneira estruturada, idiossincrática e em alguns casos única de representar ou experimentar - ou o que quer que se faça com - a realidade. Agora é universalmente aceito que a realidade "em si", como Kant coloca, é realmente desconhecida para qualquer organismo senciente; as categorias de organização, tempo e espaço são mecanismos pelos quais os sistemas perceptivos dos seres vivos, inclusive as partes do cérebro que recebem os dados sensoriais crus, requerem a imposição de uma estrutura subjetiva de modo a transformar o que seria de outra forma caótico em um ambiente relativamente constante, com aspectos consistentes o bastante para que o organismo possa imaginar, com base na memória (o passado) e observação (o presente), o que o futuro provavelmente vai ser. Continuidade é essencial; deve-se estar apto a reconhecer uma boa porção do mundo externo de modo a agir (e é claro, é por isso que o problema do nome é real e não uma ficção da imaginação medieval; o logos, a palavra, transforma o caos em objetos diversos e separados).

Uma boa parte dessa organização é feita no interior do próprio sistema perceptivo, isto é, por aquelas porções do aparelho neurológico que estão abaixo da consciência, de modo que, quando o "eu" recebe os dados sensoriais, eles já foram, por assim dizer, automaticamente estruturados em uma visão do mundo particular. Conseqüentemente, o material que se apresenta ao eu (ou ego ou seja lá o que for) origina-se em boa parte de seu próprio ser, a um ou outro nível. À luz disso, a idéia da alucinação toma um aspecto muito diferente; alucinações, quer sejam induzidas por psicose, hipnose, drogas, toxinas, etc., podem ser diferenciadas do que nós vemos de modo meramente quantitativo, e não qualitativo. Em outras palavras, uma parte excessiva emana do aparelho neurológico do organismo, acima e além da necessidade estrutural e organizativa. O sistema perceptivo é, num certo sentido, hiper-perceptivo, a parte do cérebro que se apresenta ao eu é excessiva. Os processos cognitivos, então, em particular o julgamento e a reflexão no lóbulo frontal, não conseguem acompanhar o que está sendo dado e, por isso - para a pessoa - o mundo começa a se tornar misterior. Entidades e aspectos sem nome começam a aparecer e, desde que a pessoa não sabe o que são - isto é, como eles se denominam ou o que significam -, ela não pode comunicá-los a outras pessoas. Esse colapso da comunicação verbal é o indício seguro de que, em algum lugar ao longo da linha, a pessoa está experimento a realidade de um modo alterado demais para manter sua visão do mundo anterior e radical demais para estabelecer vínculos empáticos com outras pessoas.

Mas a questão principal, de onde, em que estágio, esses desconcertantes aspectos, exageros ou aberrações em relação à visão comumente compartilhada começam, não é respondida por nada disso. Hoje temos consciência de que uma boa parte do que denominamos "realidade externa" consiste em uma estrutura subjetiva do próprio sistema perceptivo, e de que provavelmente existem tantas visões de mundo diferentes quanto indivíduos... mas como se insinuam essas "alucinações" indesejáveis, até assustadoras e certamente incomuns? Até os últimos três ou quatro anos era geralmente admitido que essas invasões na continuidade ordinária da experiência do mundo sem dúvida originavam-se da pessoa, em algum nível da estrutura neurológica, mas agora, pela primeira vez, na verdade, o corpo de evidências começou a se inclinar em outra direção. Ouve-se termos inteiramente novos, tais como "consciência expandida", indicando que a pesquisa, especialmente com drogas alucinatórias, aponta para a probabilidade de que, gostemos ou não, como no caso dos paranóicos de Jan Ehrenwald, o sistema perceptivo do organismo é hiper-perceptivo, certo, e indubitavelmente apresenta aos centros de julgamento do lóbulo frontal dados que eles não conseguem manipular, e isso é mau, porque não pode haver julgamento em tais circunstâncias, nem vida interpessoal, devido ao colapso da linguagem compartilhada - mas a hiper-percepção emana de fora do organismo; o sistema perceptivo do organismo está percebendo o que realmente está lá, mas não deveria perceber porque isso torna o processo cognitivo impossível, mesmo que as entidades percebidas sejam reais. O problema na verdade parece ser que, mais do que "ver o que não está lá", o organismo está vendo o que está lá - mas ninguém mais vê, uma vez que não existe nenhum signo semântico para representar a entidade e conseqüentemente o organismo não pode continuar um relacionamento empático com os membros de sua sociedade. E esse colapso da empatia é duplo: eles não podem empatizar o "mundo" dele, nem ele o deles.

Alucinações, doenças mentais e experiências de "consciência expandida" provocada por drogas ameaçam o organismo por causa de seus resultados sociais. É óbvio, então, o papel que a linguagem desempenha na vida humana: é o principal instrumento através do qual as visões de mundo individuais são compartilhadas, e é através desse vínculo que, para todos os intentos e propósitos, a realidade comum é construída. O que na verdade é subjetivo, torna-se objetivo - combinado. Vistas dessa forma, social e antropologicamente, não importa de onde as alucinações se originam ou mesmo até que ponto elas são acuradas - mas únicas e conseqüentemente incompartilháveis -  percepções de "níveis superiores de realidade normalmente não percebidos" nem pela própria pessoa.

Real ou irreal, originando-se do sistema perceptivo ou validamente recebido por ele devido a, dizem, algum agente químico normalmente não presente nem ativo no metabolismo cerebral, o mundo não compartilhado que nós chamamos de "alucinatório" é destrutivo: alienação, isolamento, uma sensação de que tudo se torna estranho, de coisas alteradas e distorcidas - esse é o resultado lógico, até que o indivíduo que formalmente faz parte da cultura humana se torne uma "mônada sem janelas" orgânica. Não faz diferença se suas faculdades de raciocínio permanecem intactas; não faz diferença se ele sente ou não "emoções adequadas" - os dois critérios clássicos para o diagnóstico da esquizofrenia. Parece que nada é prejudicado na verdade; diante dos dados sensoriais apresentados a ele, o indivíduo age tão bem quanto nós fazemos com os nossos, e o mesmo no que se refere a sua vida emocional - ele pode mostrar sentimentos e estados de ânimo que nós não conseguimos avaliar. Mas nós não percebemos o que ele percebe; suas emoções são quase com certeza apropriadas em relação ao que ele percebe, i. e., experiencia.

Meu sentimento, especialmente em vista das recentes descobertas de laboratório de que existe alguma conexão entre esquizofrenia e secreções da glândula supra-renal, é de que: "O homem normal não sabe que tudo é possível." Em outras palavras, a pessoa mentalmente enferma, uma hora ou outra, sabia demais. E como resultado, por assim dizer, sua cabeça explodia. Pouco conhecimento pode ser uma coisa perigosa - mas o que dizer do conhecimento excessivo? A morte, como um fator da realidade, talvez não deva ser conhecida de modo algum ou, se isso for impossível, então deve-se conhecer pouco o bastante para que se possa lidar com isso. James Stephens, em seu poema "The Whisperer" (de Insurrection, Dublin, 1912) nos informa sobre algo que eu certamente não estou feliz em saber, e espero que se possa descobrir cedo ou tarde. Ironicamente, é o próprio Deus quem sente isso:

I fashion you,
and then for weal or woe,
By business through,
I care not how ye go,
Or struggle, win or lose, nor do I want to know.

Não se deve depender de alucinações; há muitas outras formas de se transtornar a si mesmo.


Blog EntryJan 17, '06 10:57 PM
for everyone

 

  

Ginsberg se alimentava do que vitimou Kerouac. Ginsberg se sentia bem com os holofotes voltados pra ele. Sofria quando isso não acontecia. Ginsberg tentando levar garotos pra cama numa tentativa inútil de resgate de sua juventude. Ginsberg totalmente manipulado por um guru picareta. Ginsberg, o cara que escreveu "Uivo" e mudou a cabeça de toda uma geração. Ginsberg sozinho, ligando pra alguém ir lá, sentar, e conversar com ele. Ginsberg sozinho.

 

Burroughs, frio e paralisado como uma múmia asteca, capaz de teorias inimagináveis e raciocínios imprevisíveis. Burroughs, testemunha da morte lenta do filho e incapaz de agir como qualquer pai comum, mas oferecendo seu rim para o filho se ele precisasse: "Ele estava empolgado em dar isso para mim. Um rim de junkie, que presente!"

Burroughs chorando enquanto se lembrava de Jack London. Burroughs chorando com uma garrafa de J&B vazia perto dele. Burroughs sozinho.

 

Billy Burroughs Jr. com o fígado detonado, chorando ao assistir James Cagney caminhando para a cadeira elétrica. Billy Burroughs correndo desesperado no meio da rua e chorando. Billy Burroughs sozinho.

 

Peter Orlovsky e seu estranho pacto de fidelidade a Allen Ginsberg. Peter Orlovsky desejando desesperadamente uma buceta. Peter Orlovsky sonhando ter uma esposa e filhos. Peter arrancando a roupa numa festa totalmente bêbado e acusando Ginsberg de tê-lo enganado. Peter Orlovsky "que deixava passarinhos pousarem em seu dedo", condenado. Peter Orlovsky sozinho.

 

E tinha Gregory Corso, sempre incendiário, em atrito constante, tentando sempre conseguir algum dinheiro, entrando em recitais de poemas e humilhando os poetas com sua verve avassaladora, salvando gatos da rua, incitando a confusão. Corso se drogando e não conseguindo escrever. Corso com o seu filho nas costas. Corso quase sem dentes. Corso mijando na cama. Corso com suas mulheres malucas. Corso roubando lanches de crianças em playgrounds. Corso chorando a morte de Johnny Mercer. "Aquele que morre, morre na beleza: aquele que morre na beleza morre em mim". Corso, professor das ruas, expulso até da Jack Kerouac School. Corso ensinando o que não se aprende em escolas: "Há uma angústia inconcebível em todos os rostos. Não desaparece até mais ou menos seis horas da tarde. Algumas pessoas não conseguem notar a diferença, mas eu posso". O poeta em sua essência, que "não tinha nada a oferecer a ninguém a não ser sua própria genialidade".

Corso entrando no cinema quando imaginava que ia morrer. Corso sozinho. 

 

E tem esse garoto, quase inocente no meio disso tudo, um anjo de cara limpa, o tal de Sam Kashner, testemunhando tudo, narrando tudo. O primeiro aluno da Jack Kerouac School 0f Disembodied Poetics. O garoto que amava os Beats e queria se tornar um poeta como um deles. O Garoto que viu coisas demais  e escreveu sobre isso tudo.

O livro dele é "Quando eu era o tal" (Editora Planeta). É terno, às vezes engraçado, emocionante, e algumas páginas sangram como um poema de Dylan Thomas ou um verso angustiado de Gregory Corso. Um livro sobre homens que transcenderam a história e a literatura. Homens que se tornaram lendas e choravam sozinhos em seus quartos. Um livro que faz você se sentir também sozinho e desamparado. E às vezes não há nada mais necessário do que isso, pra que você recomece tudo de novo, e de novo, e de novo, até o momento que você sabe que vai ter que entrar num cinema e ficar lá até a última sessão. E talvez você nem veja os letreiros finais. Mas você sabe que tudo valeu a pena.

 

por Mário Bortolotto.


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