Rodrigo's Site

Blog EntryJosé CastelloJul 18, '06 2:09 PM
for everyone
À espera da peneira do tempo
Por José Castello
12/05/2006

Quatro lançamentos ajudam a entrever alguns rumos para a literatura brasileira no século XXI. Projetos prudentes, gerados mais pela cautela - como quando se caminha no escuro - do que pela aposta firme em uma voz pessoal. Entre as quatro novidades, há, na verdade, uma interessante exceção: "Não Feches seus Olhos esta Noite" (Rocco), o enigmático e imprudente livro de estréia da poeta gaúcha Maira Parula, que, a meio caminho entre a poesia e a prosa, revolve, com ímpeto, o mal-estar contemporâneo.
Pio Figueiroa/Valor
O escritor amazonense Milton Hatoum, um dos nomes da linha de frente da literatura brasileira contemporânea, é autor de "Relato de um Certo Oriente"


Aos 52 anos, Maira não é uma poeta inexperiente. Há muito tempo seus textos circulam em revistas literárias e em blogs. Se seu livro não chega a apontar com clareza uma direção, deixa, ainda assim, cara a cara com a impotência, ou pelo menos a insuficiência, a que a palavra, hoje, parece condenada. É um livro forte, ainda que opaco. Um livro de transição, escrito quando ainda não se pode prever o futuro.

Os outros três lançamentos, "Mãos de Cavalo", de Daniel Galera; "O Paraíso É bem Bacana", de André Sant'Anna, e "Contos de Pedro", de Rubens Figueiredo, todos pela Companhia das Letras, livros maduros, projetam, com mais nitidez, a imagem de um futuro conservador. Não se pode negar a firmeza, a limpidez com que narram suas histórias. Ainda assim, os três se apegam às memórias simuladas, aos rumores da juventude e, sobretudo, a uma visão cautelosa do ofício literário. Dão a impressão, incômoda, de que se pautam mais pela idéia de não falhar do que pela idéia de avançar.

Que futuro anunciam? Galera, aos 26 anos de idade; Sant'Anna, aos 41, e Figueiredo, aos 50, filhos de três gerações distintas, já são conhecidos dos leitores mais atentos. O caçula Galera apareceu nas páginas da internet e nas confissões prolixas (e mentirosas) dos blogs. Pertence a um grupo que retoma, por vias oblíquas, a influência beat, a literatura aventureira e, ainda, o fervor no cotidiano, tal qual nos anos 70. Seu romance, "Mãos de Cavalo", se faz por estilhaços, fiando histórias que se prendem com delicadeza e que tocam em sentimentos simples, como a culpa e a reparação.
Montagem Valor
Silviano Santiago, João Gilberto Noll, Patrícia Melo, Luiz Ruffato e Sérgio Sant'Anna, nomes sempre lembrados da literatura brasileira contemporânea, uma escola que se divide em inúmeras subescolas, com autores ligados à narrativa tradicional ou mais experimentais


Com "O Paraíso É bem Bacana", André Sant'Anna também persegue o mundo das coisas não especiais. Só que, mais crítico do que Galera, nele trata de fisgar aquilo que torna comum um mundo comum - os clichês, os comportamentos previsíveis, os tiques psicológicos, as máscaras. Conta a história de Mané, que, confinado em um leito de hospital em Berlim, enche seu vazio com delírios sensuais e enxurradas de recordações. A matéria de Sant'Anna é, como sempre, a banalidade, a pobreza de espírito, a repetição, o atoleiro. Ele faz uma literatura que opta, radicalmente, pela superfície, disposta a esgotar - ou mesmo exorcizar - as mordaças mentais que nos limitam.

Mais refinado, e com mais equilíbrio, o mais velho deles, Rubens Figueiredo, pratica uma literatura que tende à contenção e ao refreamento. Seu "Contos de Pedro" traz uma série de histórias vividas por uma série de Pedros, que, por vias distintas, cavam seu lugar no mundo. Figueiredo investe na tendência antiga ao retrato interior, que, provavelmente, espelho nobre, já não sustenta o mundo estilhaçado de hoje. Sua busca esbarra, quase sempre, nos limites de sua maneira de buscar - como um pintor que, desejando retratar um outro, terminasse por pintar sempre a si. Nem a leveza, ainda que juvenil, de "Mãos de Cavalo", nem a mordacidade de "O Paraíso É bem Bacana", menos ainda o atordoamento de "Não Feche seus Olhos esta Noite"; a literatura vista como um ofício persistente e meticuloso, a ser praticado com afinco e discrição.

Já o livro de Maira Parula é mais tenso, e mais insatisfeito com as chances da literatura. Não que resolva alguma coisa, não que consiga, de fato, perfurar a grande zoeira, o uníssono infernal que imobiliza nosso presente. Mas, se falha, esgarça seus limites, dá a ver o quanto a palavra anda (mesmo na literatura) fraquejando. Maira não se contenta em praticar um só gênero, daí a dificuldade para classificar o que faz. Poesia? Romance? Prosa poética? Confissão disfarçada de ficção? Seja o que for, seu livro circula pelas fronteiras possíveis do literário, e com isso fustiga nossa imensa dificuldade, hoje, para nomear as coisas. É uma literatura de dúvida e de inquirição. Em vez de se fixar em nosso horroroso mundo de rótulos e clones, como faz André Sant'Anna, sua narradora - que transita por nomes e sexos, e que talvez nem seja uma pessoa só - patina sobre o grande vazio, a grande opacidade do novo século. Lemos, lemos, e quanto mais avançamos, menos sabemos o que lemos.

São quatro possibilidades - o mapeamento sereno, a repetição brutal, a introspecção cautelosa e o atordoamento -, quatro tentativas de fazer a literatura avançar. Mas que literatura é esta? É muito perigoso esboçar painéis para uma paisagem em que, a rigor, domina a indefinição. Pode-se rascunhar tendências, arriscar o alinhamento de alguns escritores a certas forças sempre imprecisas, e não muito mais. E, ainda assim, sabendo que esse esforço, no fim, será só uma maneira de oferecer um ponto de partida, uma base frágil a partir da qual as leituras, sempre livres e surpreendentes, devem se fazer.
Eduardo Marques/Folha Imagem
Marcelo Mirisola, autor de "O Herói Devolvido" e "O Azul do Filho Morto", pratica uma literatura mais visceral, que não se importa muito com o "bem escrever"


Narradores brasileiros

O Brasil tem, nesta virada de século, um estupendo elenco de narradores. Cristóvão Tezza, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Sérgio Sant'Anna, Raimundo Carrero, Milton Hatoum, Chico Buarque, Fernando Monteiro, Ana Miranda, Luiz Antonio de Assis Brasil, Raduan Nassar, escritores fortes e que têm o que dizer. Isso sem falar dos mais experientes, como Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Luiz Vilela, Lya Luft, Carlos Heitor Cony, Nelida Piñon, de cujo horizonte, seja como for, não se pode fugir. O país se narra com diversidade e vigor. Mas que narrativa está por vir?

A eles se segue uma geração mais jovem, mas já madura, em que se destacam ficcionistas densos como Marcelo Mirisola, Bernardo Ajzenberg, Luiz Ruffato, Bernardo Carvalho e Amílcar Bettega Barbosa, nomes surgidos em torno dos anos 90 e que se oferecem agora como pistas seguras para esboçar o novo século. O próprio Rubens Figueiredo, na verdade, deve ser escalado neste grupo. Escritores que se tornam catalisadores de novas tendências, estimulando talentos e dinamizando caminhos.

Os neonaturalistas

Na direção que apontam, o que é possível vislumbrar? O novo século brasileiro começou, na prosa, com um retorno ao realismo e, em especial, a um novo naturalismo - a velha tradição, reformada com novo olhar. Discípulos de José Rubem Fonseca, e de sua discípula favorita, Patrícia Melo, esses escritores "de televisão", como são chamados às vezes, praticam uma literatura que rivaliza com o cinema, com os roteiros audiovisuais e o mundo frenético das imagens. Ela se apóia na estética cinematográfica, na internet e na fotografia, como se para a palavra já não houvesse outro destino senão a imagem. Aqui despontam nomes já consagrados, como Marçal Aquino, Tony Belloto, José Roberto Torero, Cláudio Galperin e Ronaldo Bressane. Narradores de nosso frenético mundo urbano e de suas turbulências, que escrevem com uma idéia na cabeça e uma câmera nas mãos.

Os new beats

À distância, um segundo grupo, em geral formado nos blogs da internet, mistura uma linguagem veloz e informal, própria dos meios eletrônicos, com uma influência forte da literatura pop dos anos 70, das narrativas dos aventureiros de estrada, como Borroughs e Ginsburg, e, no Brasil, das caminhadas sem rumo dos poetas marginais, como Ana Cristina César, Chacal e Charles, sem falar em um escritor como José Agrippino de Paula. Eles promovem, assim, uma volta ao coloquial e à vida solar, e apostam em temas mais brutos e antiliterários. São, de alguma forma, herdeiros tardios dos beats americanos, remodelados pela experiência (e pelas viagens imóveis) por meio da web. Destacam-se nomes como Clarah Averbuck, Daniel Pellizzari, Ivana Arruda Leite, Marcelino Freire, Ademir Assunção, Jorge Cardoso, Paulo Bullar, Marcelo Benvenutti e, o mais talentoso deles, Joca Reiners Terron, autor do inquietante "Não Existe nada lá". Tendência ao imediato e até ao selvagem, que, com mais despudor, ressurge no livro de Maira Parula.

Os experimentais

Há, ainda, uma geração de narradores intelectualistas, com projetos mais fechados e ambiciosos (o que não é o mesmo que dizer audaciosos). Escritores que escrevem sob a tutela mental de leituras acadêmicas, avaliações críticas e citações. Sua figura mais forte e inconfundível é o premiado Bernardo Carvalho. É nessa linha, ainda que com mais contenção, que transita também Rubens Figueiredo, com seu intelectualismo mais simples, temperado em certo realismo. E ainda o também ensaísta Nelson de Oliveira. Não é uma direção fácil, e por isso é trilhada por poucos. Entre os mais bem sucedidos está Amílcar Bettega Barbosa, premiado no ano passado com o Portugal Telecom, que escreve sob a indisfarçável - mas inspiradora - sombra fantástica do argentino Júlio Cortázar. Outro nome de destaque é Marcelo Mirisola, mais visceral, mais tenso ainda que Bettega, mais agressivo e até indiferente ao "bem escrever". Ele pratica uma literatura limítrofe, pouco atenta tanto ao bom gosto quanto ao brilho intelectual.

Os solitários

Existem escritores mais solitários, que transitam em vias isoladas, como Michel Laub, autor de "Longe da Água", e Rodrigo Lacerda, o autor de "Vista do Rio". Laub se aproxima de um Rubens Figueiredo por seu interesse pelos afetos do cotidiano; mas dele se afasta por seu lirismo mais forte e menos temeroso. Lacerda também faz uma literatura sensível, que não se deixa atordoar por modismos, ou pelas pressões de grupo. A eles se juntam o gaúcho Altair Martins, autor de uma obra pouco conhecida, mas promissora, e também autores firmes como Arnaldo Bloch e João Paulo Cuenca. Em sua solidão, eles encarnam, na verdade, o sintoma maior de uma época, na qual, em meio à zoeira infernal, o melhor é acreditar apenas em si.

Os novos intimistas

Persiste, como sempre, agora modernizada pelas modas do novo século, uma linha mais delicada e sentimental que o preconceito, em geral, aprisiona no estereótipo da "literatura feminina". Ela se manifesta, de qualquer forma, mas não apenas, na literatura de algumas mulheres. A estrela dessa tendência é Fernanda Young, que se destaca pela maneira feroz com que trabalha o romantismo. Mas Cíntia Moscovich, Lívia Garcia Rosa, Beatriz Bracher, Heloisa Seixas e Nilza Rezende têm projetos literários mais sólidos. No entanto, o que as une realmente, além do gênero feminino?

Baralhando as cartas, outros padrões poderiam ser usados para alinhar escritores antes dispersos. Por exemplo, uma certa agressividade - que o romancista e ensaísta Nelson de Oliveira atribui à alma transgressora - percorre autores que são, na verdade, muito diferentes entre si, como Ivana de Arruda Leite, André Sant'Anna, Joca Reiners Terron e Marcelo Mirisola. Mas isso basta para enfurná-los em uma mesma cela? Não basta. Em uma época de prolixidade, quando as editoras lançam toneladas de livros e autores a cada mês, é preciso mais cautela e mais pudor.

Os revisionistas

A paisagem se torna ainda mais fosca, e confusa, na poesia, na qual a herança automática das gerações vanguardistas resiste como uma doença crônica. Há uma evidente religiosidade nessa relação com as décadas de 50 e 60, uma reverência de discípulos para mestres que dificulta qualquer salto à frente. Apesar disso, temos poetas que exercitam um retorno ao lirismo e ao verso mais longo, com o conseqüente afastamento das experiências formalistas. Poetas vigorosos, e igualmente lúcidos, como Eucanaã Ferraz, Fabrício Carpinejar, Jussara Salazar e Lucinda Persona. Importantes poetas de gerações anteriores, como Paulo Henriques Britto e Nelson Ascher, estupendos poetas, podem ser vistos como os poetas do futuro, já que seus livros comandam essa desmontagem do formalismo.

Os pós-concretos

Predomina, ainda assim, uma prolixa e barulhenta geração pós-concreta - de poetas que se mantêm fiéis à herança intelectual do concretismo, de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos. Entre eles, estão nomes como Cláudio Daniel, Rodrigo Garcia Lopes, Cláudia Roquette Pinto, Ademir Assunção e Frederico Barbosa, escritores de voz e talento distintos, mas que, ainda assim, leitores sofríveis de João Cabral, igualam-se numa mesma postura construtivista e intelectualista. Suas referências, além da poesia concreta e das citações de Cabral e do primeiro Drummond, são o poeta paranaense Paulo Leminski - ele próprio um simpatizante declarado do concretismo -, Affonso Ávila e Torquato Neto , além de experiências como o tropicalismo e o que se costuma chamar de "neobarroco". Eles se vêem, em geral, como praticantes de uma "poesia de invenção", que inclui ainda nomes como Arnaldo Antunes, Jocely Vianna Baptista e Carlito Azevedo, e que se define pela ênfase nas pesquisas de linguagem.

Como efeito nefasto, prolifera, a partir dessa postura congelada, uma grande onda de poesia escolar, "de tese", mais para satisfazer o mestre que para atingir o leitor. Poesia que se dissemina nas revistas literárias e nas páginas da internet, e que, militante e sitiada em grupos fechados (para não dizer "armados"), impõe, mais por esforço do que por talento, seu trabalho. Esta postura influencia de volta, também, e infelizmente, a prosa - contando ainda com a sombra direta de alguns escritores hispano-americanos, como José Kozer, Néstor Perlongher e, sobretudo, os cubanos Lezama Lima e Severo Sarduy.

Esse estado de pulverização, que por fim é a marca da transição, não só entre dois séculos, mas entre duas maneiras de encarar a literatura, leva os escritores, prosadores ou poetas a tatearem em busca de caminhos, formando um acervo de riquezas, em particular, de liberdade, no qual todos os estilos, todas as buscas, no fim das contas, se legitimam. Resta, enfim, uma grande serenidade: o que não for bom desaparece; o que for, se perpetua. É esperar.
 
 

2 Comments
giulianoquase wrote on Jul 19, '06
Artigo para ser lido impresso!
juvenal wrote on Jul 23, '06, edited on Jul 23, '06
comentário do Galera, no seu blog :" José Castello tenta mapear a literatura brasileira contemporânea com este artigo no Valor, reservando alguns comentários a quatro lançamentos de ficção (entre eles o Mãos de Cavalo), distribuindo rótulos de maneira ora adequada, ora questionável (se Daniel Pellizzari pode ser chamado de neo-beat, principalmente depois de Dedo Negro Com Unha, meu tio é filho único) e concluindo com a velha máxima de que “o tempo dirá quem fica”, o que me parece uma espécia de deus ex-machina dos ensaios de literatura contemporânea."

Add a Comment
   
© 2008 Multiply, Inc.    About · Blog · Terms · Privacy · Corp Info · Contact Us · Help